terça-feira, 18 de julho de 2017

O Parca Negra (14º Episódio)

- Um belo de um gelado de Tiramissu para sobremesa do Ben & Jerry´s, diz lá que não sou um amor...
- Encantadora de facto, um anjo caído do céu.
A minha voz estava rouca e muito provavelmente estaria com o cabelo despenteado a espetar em todas as direcções. Ainda sentia o ardor nos olhos e o nariz pingão mas esperei que a Vanessa não desse por isso. Mal tinha falado durante todo o jantar que tinha sido ela a preparar pois eu estivera na cama a tarde inteira, ela falava pelas duas e divertia-se pelas duas. Tentei o meu melhor para socializar.
- Hei, andas mesmo cansada não andas?
Oh não, aquela voz tão doce não... ela já tinha chegado a uma qualquer conclusão. Acenei que sim com a cabeça.
- Tenho andado a sobrecarregar-me nas horas.
Ela mete uma colher pequena na boca e saboreia, eu imito o gesto. Um manjar dos Deuses derrete-se lentamente na minha boca. Estava a precisar daquilo.
- Devias ter mais tempo para pausas, a tua editora é assim tão impaciente?
- Na verdade, são os leitores que o são.
- Isso é bom não é? - Diz ela com um sorriso enorme de orelha a orelha.
Encolhi os ombros e tentei fazer com que o assunto não me interessasse de todo.
- Sempre trabalhei bem sobre pressão.
Terminei o gelado e pus-me na bancada do lava-loiça e abri a água quente, um pouco de detergente e a espuma começou a criar bolhas.
- O ar livre ajudou-te?
Não respondi, fiquei absorta nos meus pensamentos como se ela tivesse puxado um gatilho sensível, recordei-me da perseguição, da descoberta e do seu toque, dos seus traços masculinos, a minha mente teimava em dizer-me que ele não me era estranho, que eu o conhecia e outro lado de mim dizia-me para o esquecer, para o libertar da minha cabeça confusa e torturada.
- Terra chama Cassandra! Alô? Alguém aí nessa cabeça de vento?
Já estava a enxaguar os pratos quando olhei para ela voltando à realidade.
- Desculpa Nessie, dizias?
Ela revirou-me os olhos de tal maneira que entendi que estava frustrada.
- Estava a perguntar-te se o ar livre te tinha ajudado.
- Ajudou, descobri novas coisas para usar - e não era mentira.
- Então deverias sair mais vezes... se bem que se é para ficares assim tão longe deves reduzir...
Olhei para ela de sobrancelha levantada e chocada, a miss noitadas a pedir-me para reduzir as saídas, logo eu, a freira mor de um lar de idosos que quase não via a luz do sol.
- Estou a gozar Cass - ela ri-se - não precisas de levar tudo no sentido literal.
Menos mal, pensei para os meus botões e aí sorri. Só mesmo aquela doida para me deixar escapar boas emoções.
- Assim já gosto mais, um sorriso. Estavas muito pálida.
Fiz-lhe uma careta e pus-me a arrumar a loiça enquanto a Vanessa ia à casa-de-banho lavar os dentes, a campainha tocou. Olhei para o relógio e eram vinte e uma da noite. Talvez fosse a vizinha para pedir algo que não tivesse, era uma senhora idosa muito querida e prestável, de vez em quando trazia bolinhos caseiros e até legumes a horta dela, tratava-a por avozinha, como nunca conhecera os meus avós sempre imaginei que deveriam ser como ela. Com um sorriso nos lábios abri a porta.
Congelei dos pés à cabeça, com a minha pasta do portátil nas mãos, o chapéu dos AC DC e a Parca, estava ele à minha porta. Sério, expectante e quando o seu olhar passou de baixo para cima até aos meus olhos sorriu. O meu coração acelerou. Falei o mais baixo que pude, literalmente sussurrei.
- O que estás aqui a fazer?
Ele falou no mesmo tom.
- Esqueceste-te de algo importante e decidi vir trazer-to em mãos.
-O quê? Não tens um paquete?
Ele ergue a sobrancelha e o sorriso dele aumenta. Estaria a tentar provocar-me?
- Pensei que gostarias de me ver.
Os calafrios aninharam-se no fundo da minha coluna deixando me a sentir uma bola de gelo no seu lugar.
- Porque achas-te tal coisa? - Perguntei com a voz a subir de repente de volume.
Ele manteve-se, como se não quisesse que mais ninguém soubesse que ele estava ali, o seu sorriso esmoreceu e entregou-me a mala que agarrei e pousei de imediato.
- Já te começas a recordar Cassandra?
- Vieste do meu passado para me atormentar?
Ele abanou a cabeça e notei no seu olhar triste.
- Precisas de reconhecer e perdoar. Tens de saber aceitar o que se passou para seguires.
- Tu não fazes sentido nenhum! Eu estava bem antes de apareceres do nada!
- Estavas? Estavas mesmo Cass?
Fechei os punhos e cerrei os dentes.
- Não me chames assim, não te conheço de lado algum, não te quero aqui. Vai-te embora!
Conforme ia para fechar a porta o pé dele interpôs-se.
- Não vou desistir, vou conseguir encontrar-te sempre e vais ter de conviver com isso.
Silêncio e ambos os olhares, o dele determinado e o meu furioso não se largavam, não sei ao certo quanto tempo ficámos assim, perdidos naquele momento de tensão. Não sei o que se passou ao certo até surgir o seu sorriso miúdo.
- Se quiseres conversar amanhã estarei no mesmo sitio. Podemos tomar um café.
- És louco. - atirei.
- Talvez, mas, eu sei o que estou a fazer e tu nem por isso.
Forcei a porta para que ele entendesse que a conversa ficara por ali e aí ele ergueu as mãos, tirou o pé e virou costas. Não fiquei a vê-lo sair, fechei a porta e peguei no meu portátil. Avancei determinada para a sala e naquele momento decidi que iria passar o resto da noite e a madrugada a escrever, tinha de o fazer, tinha de dispersar a camada nebulosa de pensamentos que me surgiam.
Vanessa ainda veio ter comigo pelo menos umas duas vezes até entender que estava tão embrenhada no meu trabalho que só respondia em monossílabos. Foi deitar-se e eu continuei a escrever que nem uma desalmada, a inspiração vinha tão rápido que quase não a apanhava. Tinha de continuar até formar calos na ponta dos dedos.
Tinha de continuar até estar tão extenuada que me poria a dormir o dia inteiro e assim não teria a infeliz ideia de tomar a decisão de aceitar o convite para um café...

18/07/2017
21:11
Ter.

Diana Silva  









quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Parca Negra (13º Episódio)

"Estava escuro, tudo tinha escurecido tão de repente e eu estava feliz. Vi a neve a cair através da janela toda ela em altura. O cheiro que vinha da cozinha era delicioso, fazia com que me crescesse água na boca, seria o quê?
Continuei a ver os pequenos pedaços de algodão brancos a cair, lentamente, sem pressa de chegar ao solo frio, húmido e brilhante. Um manto branco cobria agora toda a extensão diante da minha casa. Nunca nevava, era a primeira vez que via um espétaculo tão bonito. Mexi na bainha da minha saia, torcia e voltava a esticá-la. 
Observava os punhos e as mangas bem engomadas, queria desfazer-me delas. Senti o sobrolho a franzir. 
Saltei do banco onde estava sentada a admirar a paisagem e pus-me passo a passo a dar voltas ao sofá que estava no meio da sala. O Aroma era tão meu conhecido, nada de estranho, tudo era casa.
A pequena mesa de centro fora envernizada recentemente. O cheiro dos citrinos pairava no ar, livre e feliz, como eu me sentia.
Agora estava a subir e a descer as escadas, primeiro um pé, depois o outro e no fim para descer a saltitar com os dois.
Apesar da suposta felicidade que sentia, estava impaciente, sentia-me ansiosa, algo me estava a remoer a curiosidade e o tempo não acorria a meu favor.
Mudei para a sala de estar e a minha vista abarcou a árvore de natal, iluminada com uma centena de luzes coloridas, sete fitas de todas as cores a adornar toda a circunferência, o número da minha idade, todos os anos punham as fitas e todos os anos as fitas aumentavam, uma de cada vez. Achei engraçado que fosse assim, não que alguma vez me dissessem que a intenção era essa. Parei diante do pinheiro enorme que ocupava um espaço mínimo na sala. Cheirava a plástico e a pó e no entanto deixava-me delirante e nostálgica. Aproximei-me para ver de perto uma bola espelhada e vi o meu reflexo, reflectido em múltiplos espelhos pequenos.
Sorri com todos os dentes e a voz da minha mãe fez-se ouvir por cima da minha jovem divagação.
- Cassandra, filha! O Jantar está quase pronto, vai lavar as mãos.
Larguei as minhas gémeas e corri para a casa de banho, onde por causa da pressa de lavar as mãos molhei as mangas e o nervosismo percorreu-me o corpo todo... a mamã não ia gostar...
Não fui tão rápida a voltar para a sala de jantar como para ir para a casa de banho, pensei que se dobrasse as mangas a mamã não iria reparar.
Cheguei e os últimos pratos estavam a ser postos na mesa, sentei-me discretamente, tentando não atrair muita atenção para a camisola de lã. Mantive os braços baixos.
- Hum... cheira tão bem mamã - disse eu.
Ela sorriu-me, mas, a sua expressão nunca me parecia ser a mais correta. Serviu-me e perguntei-me onde estariam os manos e o papá, mas, não me atrevi a perguntar, a mamã não gostava que eu fizesse perguntas.
- Agora come Cassandra. - ordenou.
Peguei no garfo e na faca e cortei o que me parecia um bom bife de peru, com batatas doiradas e legumes salteados. Estava delicioso.
Quando ela se sentou observei a sua maneira mecânica de se mexer e o seu olhar frio abateu-se sobre mim, observou-me da cabeça até ao prato e parou no ponto onde eu não queria que ela olhasse. Engoli à espera do que me iria acontecer, já aceitara o facto de que eu tinha de ser perfeita para a mamã, tinha de estar limpa, imaculada. O punho dela abateu-se sobre a mesa e estremeci. As minhas pernas que mal tocavam no chão começaram a tremer e olhei para baixo.
- Cassandra - o tom era enganadoramente suave, tal qual uma cobra capelo prestes a morder - porque tens as mangas da camisola puxadas para cima?
Mordi o interior da bochecha  e sabia que dali se eu fugisse iria ser pior. Pus os braços em cima da mesa e estiquei-as, ainda ensopadas, o tecido mais escuro onde eu tinha molhado sem intenção.
A Cadeira da mamã arrastou violentamente para trás e com um silvo rápido a sua mão abateu-se sobre a minha cara, o choque fora tão grande que me fizera cair da cadeira abaixo e tentei não verter uma lágrima que fosse. Não era seguro, a mamã não era segura, se eu chorasse ela não pararia.
- Já não te disse que não te quero suja? Minha porca imbecil! - gritou.
Cada palavra me punha mais em baixo.
- Não sabes fazer nada de jeito, agora vais ter de mudar de roupa! Vai para o teu quarto e não saias de lá, o jantar para ti acabou.
O nó da garganta formou-se, levantei-me tremelicante do chão e caminhei agarrada ao meu próprio braço. Passei pela árvore, pela janela, subi as escadas e fui dar ao meu quarto. Ainda não podia chorar, ela ainda ia voltar, eu sabia. Ela voltava sempre... sempre. Onde está o papá? Os manos mais velhos? Porquê que eles não estão cá? Com eles seria tudo melhor....
Encostei-me à almofada e de estômago praticamente vazio, deixei-me adormecer... não por muito tempo. Acordei com o choque nas pernas.
Gritei e saltei encostando a cara à almofada, a sua mão apoderou-se da minha cabeça e empurrou mais para baixo para me abafar os gritos mas não sem me deixar respirar. A parte de metal do cinto continuou a abater-se sobre o meu rabo, sobre a parte de cima das minhas coxas e não parou até estar satisfeita. Eu só me perguntava o porquê? Porquê mamã? Eu amava-te tanto, porque não eras capaz do mesmo? Porque só te vingavas em mim?
Quando terminou a sua mão agarrou-me pelos cabelos e virou-me.
- Para a próxima, não molhes as mangas! - rosnou.
Fiquei no escuro a soluçar, chorei contidamente, não podia fazer barulho. Ardia-me tudo, sabia que ia ficar com marcas, sabia que teria de as esconder e nas próximas semanas não poderia usar vestidos. E com o pensamento e sensações dolorosas chorei contra a almofada, era a que me confortava, a que tinha o toque mais doce e suave..."
Acordei ainda de lágrimas nos olhos, tinha adormecido no chão encostada à porta. Voltaram... os pesadelos voltara... as memórias abateram-se mais uma vez e escaparam do meu subconsciente.
Levantei-me do chão e cambaleante subi as escadas e fui para o meu quarto. Vanessa ainda iria demorar.
Deixei-me cair na cama e enrolei-me como se fosse um novelo, a minha almofada estava fresca e ajudou-me a aliviar a tensão, a trazer-me um pouco de presente em vez de passado.
Ainda tinha medo, o medo não me abandonara mesmo sabendo que agora era diferente, que agora já não poderia sair magoada, mas do que teria eu realmente medo?
Abracei-me com mais força ainda e sem dar pelo tempo a passar ouvi a porta de entrada a abrir e a fechar...
- Cass! Nem sabes o que te trago! Vais adorar.
Fechei os olhos e inspirei todo o ar que podia para a seguir libertá-lo. O meu lar voltara a mim e senti os meus lábios a formar um sorriso muito ténue.

13/07/2017
Qui.
02:46

Diana Silva















terça-feira, 11 de julho de 2017

O Parca Negra (12º Episódio)

Calor, estava muito calor. Não sabia se era pela presença dele ou se por estar em cima do prédio a levar com o sol de chapa. Parecia que todo o meu corpo entrava em ebulição de dentro para fora, como se tivesse esturricado. Eu recordava-me do olhar escuro, os olhos negros faiscantes mas aqueles tinham a cor de uma alma viva e radiante. Poderia aquilo ser alguma vez possível? Existir tanta sensação num olhar, tanta promessa.
Engoli em seco e senti-me a dar um passo para trás, ele seguiu o meu passo mantendo a mesma distância. De mãos ao peito voltei a dar outro e ele repetiu o movimento. Parei e ele continuou até restar só a distância de um pé, a sua mão ergueu-se sem hesitar e o indicador percorreu-me da têmpora ao maxilar e do maxilar ao queixo, percorreu-me um formigueiro, uma leve dormência que despertou pequenos choques eléctricos por onde o seu dedo passava, um rasto incandescente que me punha o coração acelerado. A sua mão curiosa não parou por aí, passando pela jugular do meu pescoço e atravessando a clavícula parando no ombro. Um aperto suave como que a justificar a sua posição.
Não o parei, deixei que ele repetisse de maneira exacta no outro lado e senti as minhas faces pálidas a ruborescer, o corpo a ganhar vida. Deixei-me guiar pelo toque suave e escaldante de tão mínimo que o era. Quando a sua mão pousou no outro ombro estas giraram deixando-me a rodopiar num frenesim irrequieto na minha mente. Fechei os olhos e senti o toque a percorrer-me os braços, os pulsos e depois num salto abraçou-me as ancas e aproximou-me ao seu corpo. Uma Parede de emoções, inspirei fundo e abri os olhos.
Ele observava cada reacção que eu tinha, o seu olhar penetrava no meu e estava totalmente concentrado.
Não sabia se devia fugir, eu pelo menos não o queria., mas...não devia?
Senti-me completamente embriagada, o seu perfume era possante o seu toque firme deixava-me a desejar que não estivéssemos em cima de um prédio com tantos andares e o seu olhar... oh, o seu olhar...
Contive o impulso que tive de lhe tocar, queria sentir a pele do seu rosto, peito, braços, observá-lo como ele me observava a mim mas, não o fiz, esperei, que ele reagisse.
O peito dele subiu e desceu como se apanhasse uma essência a pouca distância que nos separava, por amor de Deus, que faria eu? Estava tão inebriada, tão confusa por um estranho de emoções fortes.
Quando pensava que ele iria cortar caminho até à minha boca, livrou-me do seu aperto e separou-nos novamente.
Não... eu não queria...
- Não devias deixar-te guiar por alguém de quem não te recordas Cassandra.
De quem não me... recordo?
- A culpa é tua! Tu é que vieste ter comigo. - Escutei-me a dizer.
Ele observou-me curioso e o sorriso voltou a aflorar-lhe a pele.
- Pois fui. Fui mesmo.
- E então? Vais continuar aqui a provocar-me ou vais dizer-me algo minimamente esclarecedor?
Ah... lá estava a coragem e firmeza novamente. Ele volta a ajeitar o boné e coloca a sua melhor expressão de pensador.
- Provocar-te até seria interessante, mas infelizmente estamos demasiado desprotegidos e as paredes têm ouvidos...
- Para com isso! Fala - e depois murmurei - por favor.
- Cass...
Como sabia ele a minha alcunha?
- Já alguma vez te disseram que és muito impaciente, não posso recordar-me por ti.
- Mas recordar o quê? - Ok, agora estava a ficar muito frustrada.
- O passado. - disse ele levantando uma sobrancelha.
Senti uma necessidade enorme de me abraçar a mim própria ou de que alguém me abraçasse. Um calafrio gigantesco percorreu-me a espinha. Engoli em seco e desta vez o desejo consumiu-se e fiquei extremamente nervosa.
- O meu passado não tem nada de interessante. Nada que valha a pena.
Uma gota de suor escorreu-me pelo rosto.
- Oh mas tem e tens de enfrentar os teus fantasmas Cassandra.
- Não, não tenho.
O que saberia ele da minha vida? O que quereria ele dizer? Não queria fazer uma viagem a más recordações, não queria aproximar-me do abismo novamente. Senti a ameaça das lágrimas mas forcei-as a estar quietas. Ele ficou quieto, não se mexeu e perguntei novamente.
- Diz-me, por favor, quem és tu?
- Alguém que preza muito a tua vida, só saberás se me quiseres recordar Cass.
Outra estocada no peito e mais um murro no estômago, sensações tão dispares. Primeiro a luxuria e depois a depressão. A minha voz quase se derreteu no meio da amargura.
- Não consigo, não posso. Quem quer que tu sejas tens de te afastar, não quero o meu passado de volta.
O seu rosto alterou-se momentaneamente, aquilo era... mágoa?
- Ele vai voltar quer tu queiras quer não. Lembra-te do porquê que escreves, lembra-te do porquê que te fechas em casa.
Fechei a boca, não aguentava mais a pressão e tal como uma verdadeira covarde virei costas e corri na direcção das escadas de incêndio, desci tão rápido que nem dei por chegar ao último piso de escadas, não dei por atravessar as estradas, escapou-me o som dos carros a buzinar e as travagens bruscas. Não prestei atenção a ninguém à minha volta, eu só queria a minha casa, o meu lar, e quando cheguei à porta peguei nas chaves de mãos trémulas e após várias tentativas consegui entrar e fechar a porta atrás de mim.
Deixei-me cair com o coração a mil, as veias das têmporas a bombear, a respiração ofegante e por fim a visão turva. Agarrei-me aos meus joelhos e deixei as lágrimas correr livremente, chorei tudo o que tinha a chorar, chorei pelos anos, chorei pelas perdas e desilusões, chorei pela prisão que me impusera a mim mesma e mesmo no fim não conseguia saber quem ele era... não conseguia trazer ao de cima as memórias mais fortes, tinha erguido barreiras para elas, tinha pago para isso, tinha sido tratada... e no fim para nada, tudo voltara ao mesmo... o meu passado perseguira-me e encontrara-me dando-me uma valente chapada de luva branca.

11/07/2017
19:44h
Ter.
Diana Silva



domingo, 9 de julho de 2017

O Parca Negra ( 11º Episódio )

Senti a coluna a ficar hirta, não conseguia afastar o olhar da silhueta. Aquela sombra que me parecia familiar, obriguei-me a não piscar sequer os olhos. Fiquei num impasse, hesitei entre levantar-me e correr e ficar sentada a admirar...
- Minha senhora, o que irá desejar?
Pisquei os olhos e virei-me para o empregado, não fazia ideia de como estava a minha expressão, mas, pelo olhar do rapaz não deveria estar muito famosa. Abri a boca e voltei o olhar para uma rua vazia. Porra, já lá não estava.
- Minha senhora?
Limpei a garganta, sentindo as faces a arder momentaneamente.
- Um café por favor... hum... duplo.
Ele escreveu no seu pequeno bloco de notas - mais algo, senhora?
Abanei a cabeça e fiz um esboço de sorriso forçado. O rapaz virou-me costas e dirigiu-se para o café. Tentei recompor-me e pôr a cabeça a funcionar. Portátil ligado, caderno de lado, estava pronta para mais um capitulo. Não demoraram a trazer o meu pedido e ao primeiro golo queimei a língua, pousei o copo já a sentir a língua crua. Xiça... tinha de me concentrar.
O choque de temperatura na minha boca fez-me ganhar o tino e nem dois segundos depois, o som divinal das teclas a serem percorridas debaixo dos meus dedos fizeram-se ouvir. Ganhei ritmo e quis continuar sem parar.
"Tão sincero o seu olhar, mas, ao mesmo tempo tão obscuro como o seu toque. Face às ultimas circunstâncias, o que poderia eu realmente fazer? Como o poderia atingir, de modo a que ele finalmente entendesse que eu estava ali para ele e somente ele me fazia sentir e agir de tal modo?"
Respirei fundo e mordisquei o interior da minha bochecha, num ato mecânico levei o copo a boca, soprei e mais um gole.
"Seria assim tão difícil?
- Não sejas idiota, por favor, olha para mim e diz-me o que vez!"
Revi as últimas linhas do capitulo por fechar e uma brisa agradável beijou-me o pescoço e a nuca trazendo consigo o odor tão por mim conhecido naqueles últimos dias, o que estivera ausente nos últimos dois dias. Cresceu-me água na boca, o interior das minhas coxas aqueceu de expectativa e as borboletas tomaram conta do meu estômago revoltado. A uns meros vinte metros uma figura ensombrou-me o olhar, ergui-me relutantemente da cadeira, o homem automaticamente pôs-se direito e virou-me costas.
Não! Desta vez não me irás escapar!
Arrumei as minhas coisas num ápice, deixei o dinheiro em cima da mesa sem esperar troco e corri. Ele andava calmamente a uns cinquenta metros na rua provavelmente nem dera pela minha mais recente missão de perseguição. Sentia-me ofegante, mas, recusei-me a travar o paço, corri mais um pouco, abrindo caminho por entre olhares curiosos outros tantos enfurecidos. Ele mudava de sentido e eu seguia, tentei manter uma distância saudável para não ser apanhada e o coração martelava-me no peito, uma velocidade nada graciosa. Senti gotas pequenas de suor a cair-me pelo rosto. Ele parou e eu esgueirei-me para o meio de umas caixas empilhadas ao lado de uma loja de roupa do outro lado da estrada. Não conseguia ver-lhe o rosto e eu queria ver. Ele olhou para cima e entrou por outra rua mais estreita, atravessei a estrada sem tomar a mínima atenção aos carros, totalmente obcecada pelo estranho que estava a seguir, o meu instinto nunca me falhara, eu sabia que era ele... só podia ser ele. O meu punho na mala era de ferro e contornei a esquina da rua por onde ele se tinha dirigido, apanhei-o mesmo na altura em que ele voltava a mudar de direcção, então ganhei um pouco de mais velocidade, entrei pela rua e fiquei confusa. Teria entendido mal? Ali só existia uma escada em caso de incêndio e cimento. Lixo no chão e vazio...
Respirei fundo e tentei não entrar em combustão espôntanea, será que ele tinha subido? Mordi o lábio, eu tinha um enorme medo de alturas e a força da minha vontade impelia-me a que me lixasse para os meus medos, tinha de o encontrar.
O meu instinto de sobrevivência estava totalmente em modo Off.
Subi as escadas, com cautela e muito cuidado, o prédio em si comparado com outros à sua volta era o mais alto com dez andares, tentei não pensar muito nisso, quando cheguei ao último andar o meu coração prometia saltar-me da boca para fora, as pernas tremiam do esforço e o meu corpo ameaçava ceder, estava numa desgraça.
Caminhei até a meio chegando à conclusão de que estava sozinha ali em cima, deixei-me cair de rabo no chão e pousei a pasta ao meu lado, olhei para o céu que se erguia por cima de mim e o sol que me batia na nuca, as nuvens ameaçavam chuva mas por enquanto aguardavam pacientes no horizonte. Limpei o suor da minha testa com a manga e suspirei abraçada aos meus joelhos.
Porquê que eu era tão paranóica? Porquê que me deixei guiar pela estupidez e incoerência de pensamentos. Baixei a cabeça e no preciso momento em que o fiz a brisa trouxe-o e abri os olhos deparando-me com um par de botas pretas e com aspecto pesado, o meu olhar percorreu as pernas, a cintura e os ombros, do rosto encoberto por um boné dos AC DC só conseguia ver o lábios que formavam um sorriso de lado. Senti-me a aquecer de baixo para cima e um arrepio gelado percorreu-me a espinha. De rabo no chão afastei-me...
"Oh, claro, primeiro persegues o homem como uma maníaca e agora foges à sua frente!"
Estaquei de boca aberta como um peixe e ele vendo a minha hesitação aproximou-se, lento, sedutor, deixando o rasto quente que emanava da sua figura e estendeu-me a mão. Engoli em seco e muito devagar aceitei. A palma da sua mão estava quente, tão quente que uma sensação electrizante percorreu-me o braço até chegar ao meu âmago. Levantou-me sem qualquer dificuldade e manteve uma certa distância de mim, coisa que dei por mim a pensar que eu não queria, não... eu queria tudo menos distância.
- Até que enfim, Cassandra. Só não esperei que te aventurasses tanto.
A sua voz, profunda, suave como cetim, doce como mel. Reparei que ele ainda me agarrava na mão e retirei-a com as faces a arder de tão coradas que estavam. Tentei ver através do chapéu mas continuava a ver somente aquele sorriso.
- Eu disse-te que sair de casa de vez em quando poderia ser bom.
Abanei a cabeça e senti-me a franzir o sobrolho. Onde estava a minha coragem agora, cerrei os dentes e encarei-o de frente a sentir as dúvidas e todas as transgressões, toda a confusão em que aquele homem me punha.
- Quem és tu? - Perguntei sem vacilar.
Ele parou e por momentos achei que o surpreendera, os ombros dele voltaram a relaxar e de sorriso nos lábios disse.
- Sou apenas um velho amigo...
- Um velho amigo que me entra na cabeça e que faz aquilo que quer de mim?
Pronto, dissera-o, e voltara ao estado sinal de STOP.
- Só aquilo que desejas, Cassandra.
O meu nome a enrolar-se naquela língua soou tão sensual que quase me derreti, o meu nome na sua boca era abrasador.
- Aquilo que desejo? - a voz começou a falhar-me - então presumo que saibas aquilo que eu quero agora.
Os seus lábios cerraram-se abandonando o sorriso, a sua voz enrouqueceu.
- É isso mesmo que queres?
- Quero ver-te, deixares-me cartas e e-mails, fazeres-me visitas... tu conheces-me e eu nunca te vi na porra da minha vida.
O sorriso voltara.
- Não me arrependo. Consegues ser bastante receptiva.
Bati o pé mentalmente.
- Mostra-te!
De repente parecia que estávamos em câmara lenta, a mão dele, grande e bronzeada agarrou na pala do chapéu e com um movimento subtil, retirou o chapéu dos olhos expondo o olhar azul oceano e frio diferente dos meus sonhos...



09/07/2017
13:30
Dom.

Diana Silva













terça-feira, 4 de julho de 2017

O Parca Negra (10º Episódio)

O que iria almoçar... sopa? Um bom bife grelhado... omelete? Não tinha estômago, nem paciência para nada de muito complicado, mas, tinha de esperar que a Vanessa acorda-se.
Sempre podia fazer algo simples para mim e depois quando ela decidisse despertar, prepararia algo para ela.
Desde que Vanessa chegara, as coisas tinham-se acalmado razoavelmente, fazia já dois dias desde que a minha amiga do peito entrara feita furacão pelo meu Hall de entrada a dentro.
Nem sinal do meu subconsciente matreiro e carente.
Optei por ovos mexidos. Rápido e simples, dava para apaziguar o estômago e não ter uma crise de hipoglicose.
O Portátil ligado com o barulho das ventoinhas a girar, estava repousado em cima da mesa e decidi que iria permanecer ali. Precisava de endireitar um pouco a coluna e sair da posição habitual de australopithecus.
Entre garfadas e teclas fui dissolvendo o nó mental que me retera antes dos ovos, as palavras fluíram com mais facilidade entre o cérebro e os dedos. Sair de casa para obter inspiração poderia tornar-se numa ideia tentadora.
Pus o prato de lado e escrevi freneticamente o final do capitulo vinte e um.
Escutei o som de passos lentos e sonolentos a descer as escadas e Vanessa apareceu à entrada da sala com um pijama deveras mínimo e pouco colorido. Sempre pronta para acção... pensei para com os meus botões.
- Bom dia cotinha! - saudou-me
Sorri, de vez em quando ela até tinha piada, só arrasando a ironia.
- Cotinha? Essa é nova.
- Gosto de inovar... então o que é o almoço?
Levantei-me para ir pôr o prato no lava loiça.
- Não te quis incomodar por isso preparei algo leve para mim e esperei que acordasses para te cozinhar algo...
Ela espreguiçou-se e o seu sorriso de orelha a orelha rasgado encheu-me de sossego e nostalgia.
- Mimas-me demasiado Cassie, qualquer dia mudo-me para aqui.
- É o mínimo que posso fazer depois de te ter quase arrastado "para aqui".
Acabei de lavar o prato.
- Então o quê que a chefe lhe pode fazer?
A Vanessa abanou a cabeça e quase me escorraçou da cozinha.
- Não tens prazos? Vai terminar o teu trabalho por favor, eu posso cuidar de mim.
- Pronto, se tu o dizes... tem cuidado é com a frigideira, ela é manhosa.
- Sim mamã... - suspirou e riu-se entre dentes.
Semicerrei os olhos divertida e fui novamente para a mesa.
Era muito fácil estar ao pé dela, a alegria dela era genuína, e nunca na minha vida pensei em pedir melhor amiga que esta, sempre pronta, para ser tudo.
"Capitulo 22" e um "plim"
Olhei para o canto inferior direito e vi que tinha recebido uma mensagem na minha caixa de entrada, a minha mão tremeu de expectativa e o sangue começou a aflorar-me a pele, escaldando as veias e as emoções. Seleccionei a mensagem, o assunto novamente em branco, novamente em anónimo e soube assim mesmo que era ele. O meu misterioso perseguidor.
"Às vezes sair de casa faz bem à alma e à imaginação...
Atentamente
O Parca Negra"
Instintivamente franzi o sobrolho, o nervosismo dava para que eu roesse as unhas até ao sabugo mas contive-me, em vez disso, escolhi responder, sem ter a certeza se alguma vez iria chegar ou não.
"Estou em grande desvantagem de facto, acho que me deve uma grande explicação..."
Não me pus com cerimónias, gostava de ir directa ao assunto, enviei e enquanto esperava por uma suposta resposta tentei empenhar-me na continuação, novidade das novidades, não me voltei a concentrar. Da sala ouvia o barulho que Vanessa fazia na cozinha, ainda ia demorar, inspirei e derreti-me de impaciência na minha cadeira até que o esperado "plim" se fez ouvir novamente.
"Não te prendas Cassandra, nunca é bom estarmos só connosco mesmos, torna-se cansativo."
Mas quem era aquele tipo para me dizer algo do género? Furiosa, voltei a teclar.
"Vem e mostra-te, pode ser que aí deixe de estar só comigo!"
Enviei sem ler uma segunda vez, senti a coragem a assomar-se nas minhas entranhas, estava a ficar perdida com todo aquele mistério. Que homem teria uma presença assim tão forte, um homem que nunca vira o rosto, que de facto nunca vira realmente, quem seria ele para me assombrar até nos sonhos, para me trazer prazer culpado, para me deixar tão inebriada como nunca ninguém fez. Seria isso alguma vez possível? Teria eu alguma vez cruzado com aquele estranho sem ser no café?
Mensagem recebida.
"Pode ser que aconteça mais tarde ou mais cedo
Atentamente
O Parca Negra"
Voltou à formalidade, ao mistério. Não voltei a mandar mensagem, fechei o portatil e pu-lo dentro da minha pasta. Fui para a cozinha e Vanessa já punha no prato o seu almoço.
- Tens planos para esta tarde Nessie?
Olhou-me desconfiada, provavelmente notava a minha alteração de humor.
- Tenho de ir fazer cinco horas extras na livraria, a Anabela ficou doente.
Senti a minha boca a tremer nos cantos e formei o O.
- Bom então parece que irei sozinha. - conclui.
- Ir onde? - perguntou erguendo a sobrancelha armando o seu melhor ar de detective privada.
- Vou ao Luigi´s, têm esplanada e jardim, o dia está favorável para ganhar inspiração com um bom café.
Sorriu, mas, sabia que a pontada de preocupação que lhe marcava a covinha da bochecha iria permanecer.
- Acho que fazes bem, devias pôr-te ao sol um pouco. Desde à uns tempos para cá que te tornas-te num fantasma. A serio.
Revirei os olhos.
- Ficaria mal vista se sai-se agora?
- Força - incitou-me - eu também vou tomar um duche, vestir-me e dar corda aos sapatos.
Dei-lhe um beijo na testa e peguei no meu material, peguei nas chaves e saí porta fora sem me demorar muito. O Luigi´s ficava a uns meros sete minutos a pé, atravessar umas duas estradas e já estava.
Cheguei lá em cinco.
Sabia bem ter consciência dos músculos das pernas, não me tornara de todo lenta como à velhinha raquítica que eu me sentia.
Sentei-me na mesa mais afastada da entrada do estabelecimento e fechei os olhos. Inspirei o ar à minha volta e quando abri de novo os olhos, pareceu-me ver uma figura preta

ao longe...


4/07/2017
Ter.
Diana Silva