terça-feira, 26 de setembro de 2017

Mulatas/os

Deixem-se de mulatas, dêem-me um café com leite que sabe melhor.



Nós como seres humanos, muitas vezes não conseguimos evitar dizer barbaridades. E uma delas é em relação à descrição de uma pessoa pela sua cor. Devemos dar o nome “às coisas como são” não é?
(Tal como se costuma dizer por aí, não sei quem é que iventou a bela desta... afirmação?)

Assim sendo tomei a liberdade de fazer umas pesquisas, apesar de já saber o que significa à anos o que é e como se sucedeu, apenas para sustentar a minha opinião.

“Adoro” quando oiço alguém a dizer: - “Aquela mulatinha” ou “Olha a bomba daquela mulata”. Simplesmente dá-me arrepios.
Não me interpretem mal, antes de saber o que era também implementei a palavra

... muitas vezes...

E depois de me aperceber do disparate nunca mais cai nesse erro, não me recordo da última vez que referi tal assunto. Maior parte das pessoas não sabe, ao não saber não tem culpa, mas, informem-se, nem todos gostam de ser chamados de mulatos ou mulatas.



Tomei a liberdade de tirar um excerto do do dicionário:

“ Mulata
Palavra de origem espanhola, feminina de "mulato", "mulo" (animal íbrido, resultado do cruzamento de cavalo com jumenta ou jumento com égua). As palavras "mulato" e "mulata" foram usadas de forma pejorativa para os filhos mestiços das escravas que coabitaram com os seus senhores brancos e deles tiveram filhos.”

Ou seja, obrigada sociedade por se mostrar tão discreta na sua educação. Porquê que isto não nos é explicado na escola? Só interessa “o poder dos brancos” entre os séc. XV e XIX?
Estas mulheres eram violadas pelos seus “senhores brancos”.

Ficas-te esclarecida/o?~

Se calhar da próxima vez a tua descrição será, café com leite, aviso-te já que é bem mais saboroso e menos ofensivo etnicamente.



Sabias que antigamente eles pensavam que Os/As Mulatos/as eram inférteis e que não se podiam reproduzir? Que eram uma abominação da natureza e que muitas vezes eram mortos? Que muitas vezes só serviam para sofrer de sodomização e objecto sexual para dar prazer aos tais "Senhores e Senhoras"?



Ainda bem que nasci no fim do Séc. XX, não por ser de duas etnias, mas, por não aprovar atitudes racistas.

Mulata não é elogio

Diana Silva

Páginas de Inspiração

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Parca Negra (29º Episódio)

Eram quentes e macios, os lábios dele sabiam como dar conta dos meus na perfeição.
As mãos ainda me prendiam as ancas e a curta distância que nos separava foi superada, o corpo dele colado ao meu. Uma das suas mãos acariciou-me a anca até ao fundo das costas e eu deixei-me levar quando num impulso ele me prendeu a si com um só movimento. O meu cabelo que ainda estava molhado começou a colar-se ao meu pescoço e as minhas mãos viajaram para as costas do Samuel. Queria-o ali ao pé de mim, senti-a que aquilo era tão errado mas sabia-me tão a certo.
Por breves instantes a confusão na minha cabeça abandonou-me um pouco, a consciência do que estava a acontecer no momento deixou de existir.
Ele estava ali, ele parecia a minha peça em falta, ele era o que me faltava no meu puzzle.
Ele afastou-se de mim um pouco.
- "Não... demasiado cedo..." - pensei.
Nos olhos dele existia chama, aqueles olhos azuis deixaram de ser gelo, para queimarem sobre os meus. Quem diria? O Peito dele mexia ao mesmo ritmo que o meu, as nossas bocas já não estavam unidas mas ainda tinha o Samuel agarrado a mim. Uma necessidade absurda surgiu-me nas entranhas, e eu soube instantaneamente que eu queria aquele homem e ia fazer de tudo para descobrir, reviver as memórias e trazer o passado ao de cima. Ia encontrar-me novamente com o médico.
Samuel, afrouxou um pouco o nó que tinha criado e puxou o banco.
- Senta-te. - pediu ele.
Não pensei duas vezes, e fiz o que ele me pediu, quando me sentei, as mãos deles voltaram ao seu lugar, afastando o cabelo colado à minha pele com cuidado e recomeçando a massagem. Estremeci de alivio e senti a minha cabeça a tombar, fechei os olhos.
Uma imagem começou a formar-se no meu cérebro.
Samuel deitado de barriga para baixo na cama e eu em cima dele a dar-lhe massagens para aliviar a tensão dele.
Parecíamos tão felizes naquela imagem.
Abri os olhos muito rápido e pousei as mãos nas dele, pedindo-lhe que fizesse uma pausa, o coração desacelerara mas a tensão ainda estava ao rubro por ali.
- Porque estás a fazer isto? - perguntei.
- Queres que pare?
Levantei-me e virei-me para ele, colei o rabo ao balcão para me dar mais alguma distância dele e para conseguir olhá-lo bem nos olhos.
- A questão não é essa, não me respondas com outra pergunta por favor.
Ele encostou-se ao lava-loiças de braços cruzados e... espera...
- Estás a fazer uma espécie de beicinho Samuel? - agora fui apanhada de surpresa.
Ele piscou os olhos e levantou as mãos em sinal de rendição.
- Pronto, tudo bem, estava só a brincar contigo, às vezes teres sentido de humor não te faz mal nenhum.
- Sim porque ter um homem feito a fazer-me beicinho é engraçado.
Pensando bem, comecei a rir-me da figura dele e ele sorriu, tinha feito o que ele queria, compreendi mais tarde.
- Agora a sério, vais parar de atrasar a resposta ou não?
- Fiz-te uma simples massagem porque estavas tensa Cass, nada mais nem nada menos que isso.
Pronto, até podia ser verdade e eu estar a ser paranóica, agora...
- E o beijo, foi para aliviar a tensão também?
O sorriso dele abriu imenso, tanto que nem imaginei possível, parecia o gato da Alice no pais das maravilhas, todos os dentinhos à mostra.
- Na verdade acho que surtiu o efeito contrário.
De inicio não entendi mas ele investiu novamente, aproximou-se de mim em três passos e certificou-se que dali eu não me mexia, tal qual prisioneira e era hum... bastante sensual.
- Não me esmurras-te por te beijar, depreendo que também queiras.
Como se não fosse bastaste óbvio. Não respondi, deixei-me estar calada, quis ver onde ele queria chegar, num segundo deixei de estar com os pés no chão e o meu rabo ficou sentado no balcão, mais uma vez apanhou-me desprevenida. Senti-me ousada, puxei-o para mim e falei.
- O quê que tu tens para me fazer esquecer a porcaria que aconteceu ontem à noite? Vi uma cabeça empalada no motor do carro da minha melhor amiga e no entanto aqui estás tu, um homem que diz ser o melhor amigo do meu irmão morto, que diz ter um passado de que não me recordo comigo, que já fomos mais do que somos e no entanto sem provas acredito em ti, porque me fazes sentir nostalgia. O que irei fazer contigo? Estás a fazer com que eu revele uma faceta minha à muito enterrada...
Samuel, deixou-se estar com a minha mão na cabeça dele, e encostado a mim, a sua boca foi até ao nível da minha orelha, mordeu o lóbulo desta o que me provocou um arrepio suave nos cabelos da nuca e depois sussurrou.
- Parece que já não vais para freira Cassandra, dá-te por feliz.


03:08
26/09/2017
Ter.

Diana Silva





domingo, 24 de setembro de 2017

Feminismo

Sou Mulher, também quero estar em Cima


Existe muita polémica, no que é alguém ser Feminista e eu pergunto-me – Mas porquê?
Alguém não anda a fazer o trabalho de casa como deve, mas como boa pessoa que sou vou explicar, com cuidado, para que mentes mais sensíveis não sejam maculadas.

Existem Mulheres e Homens (sim, Homens também o podem ser) que acreditam em igualdade de sexos, na cooperação, no peso correto da balança. Que sejamos tratados com o respeito e a dignidade que todos merecem.
Isto é um resumo do ser Feminista, mas, não é só isto, pois o ter-se estes ideais, tem-se história com eles a correr pelo corpo, pelas veias.
Quantos ousam imaginar o que as mulheres passaram para chegar onde estamos hoje?
Sim... porque se nós temos de agradecer a alguém, agradecemos às guerreiras que sofreram, sangraram e morreram para nos deixar no Pedestal.

O feminismo é um movimento social de "quebra" da hierarquização dos sexos, do sexismo e do machismo.
Mas, atenção, agora é que a moeda mostra a outra face.
Tal como existe o Machismo, existe também o Femismo são sinônimos, vou fazer-vos uma representação.
Femismo = Machismo
Feminismo ≠ Machismo

O Femismo apoia a reação Machista, ou seja, tal como as pessoas machistas, as femistas acreditam numa hierarquização social mas no seio matriacal. As mulheres é que governam! E nos homens, eles é que governam!
Femismo e Machismo = Julgam-se seres superiores
Até me dá vontade de mudar a minha religião, deve ser por isso que adoro tanto os Gregos e os Romanos, eles não têm “Deuses” eles têm “Deuses e Deusas”.

Por favor não confundam algo que tem garra e poder com aquilo ao que eu chamo de sociedade retrógada e reparem no inicio deste texto em que eu disse “Sou Mulher, também quero estar em Cima”.
Eu sublinhei o “também” para que lessem bem, não referi que queria dominar, que queria ser a patroa da festa e aí têm a diferença, é o querer participar como par e não como submissa ou dominadora.

Sabiam que o Feminismo surgiu na nossa Europa em meados do séc. XIX? Tudo devido aos nossos amigos Franceses que com o seu regime politico exposeram os seguintes ideais;

Igualdade, Liberdade e Fraternidade
Nós queremos ser parte da sociedade e não bonecas insufláveis

Obrigada Mulheres! Sou Feminista com Orgulho
Pois somos todos iguais e no fim

Somos todos pó!

Diana A. Silva
Páginas de Inspiração

sábado, 23 de setembro de 2017

O Parca Negra (28º Episódio)

O café cheirava tão bem, apesar da cafeína ser enérgica aquilo acalmou-me, depois de uma noite completamente cheia de emoções confusas e furiosas. A minha amiga que habitualmente era uma tagarela de primeira, agora estava calada e isso levava-me de volta ao hospital, de volta a tempos que eu não queria ter em mente. Respeitei o silêncio dela, apesar de ela muitas vezes insistir comigo quando o que eu mais queria era estar calada e no meu canto, limitei-me a beber a minha dose de bons dias.
O Silêncio era de tal maneira enorme que apeteceu-me ter o meu portátil ali, só para ouvir o som das teclas e do rato. Estranho não era? Passei tanto tempo em silêncio e agora o silêncio incomodava-me.
Tal qual a rapidez com com que uma pessoa muda de pensamentos, algo me espicaçou a mente, e porque não?
- Nessie, tenho uma proposta a fazer-te.
Ela tirou o olhar da bancada e olhou para mim, curiosa, mas não falou, sorri para deixar o ambiente menos carregado.
- Que tal mudares-te para aqui? Estarás mais segura, ninguém sabe onde estás e podes refazer um pouco a tua vida enquanto nada está resolvido.
A cara dela mudou de expressão, estava incrédula, mexeu a boca mas não tinha reacção, continuei a falar, para a tentar convencer.
- E não tens de te preocupar muito, pago a média da renda e sendo só duas pessoas também não há muito para gastar na verdade. Seria muito bom que ficasses aqui comigo Nessie.
- Cass...  - começou ela por dizer e começou a abanar a cabeça - e se eles andarem a seguir-me? Como é que descobriram o carro ontem à noite? Como é que sabiam que era o meu? Podes ser apanhada no meio disto sem saber, não quero correr riscos para ti, de manhã já estive a pensar em ficar num Motel...
Fiquei pálida.
- Escuta-me, aqui somos duas, conseguimos defendermos-nos, não é bom ficares sozinha agora, eu não quero que fiques sozinha.
Ela continuou a abanar a cabeça, parecia um cãozinho atrás do carro.
- Ela tem uma certa razão Vanessa.
A voz rouca da manhã provocou-me arrepios, um sentimento de nostalgia deixou-me a tentar reviver as memórias que não encontrava. Olhei para ele quando se sentou no banco ao nosso lado, já com a camisa vestida.
- Como assim ela tem razão?
Ah... então eu fui a única a ficar parada no tempo, optei por não ficar na posição de múmia retardada e servi-lhe um café, saltei do banco para tirar uma caneca e meter o café ainda quente lá dentro.
- É simples, acho que quem quer que seja não está interessado na Cassandra e se alguém soubesse realmente onde estás, não achas que já teriam destruído o carro aqui mesmo à porta?
Ela suspirou e eu também, podia ser que o Samuel me ajudasse a convence-la.
- Já para não falar que deve ser alguém que só te quer assustar, pois já tiveram oportunidades para te fazer algo com certeza e não o fizeram.
- Ou não arranjaram a altura ideal, mal já me estão a fazer.
Mas que nuvem era aquela a cair sobre a minha melhor amiga? Já não tinha bastado a adolescência dela?
- Só te vai fazer bem ficares aqui, comigo, acompanhada.
Ela baixou os ombros e bebeu o café, que provavelmente já estava frio.
- Deixa-me pensar, ok?
Levantei as mãos.
- Dou-te o tempo que quiseres, assim ao menos até lá estás comigo.
Ela sorriu e levantou-se despejou o resto que tinha na caneca para o lava-loiça e despediu-se.
- Vou deitar-me um pouco, estou acordada desde as duas da manhã.
Quando terminou a frase já estava fora da cozinha, ouvi os passos nas escadas e depois o som da porta do quarto a fechar.
Levantei-me e fiz o mesmo, despejei o café e lavei as canecas, sempre consciente que o Samuel estava ali comigo e os dois estávamos sozinhos. De repente um sonho que não tinha tido há muito tempo surgiu-me na mente. Os beijos no pescoço, a necessidade que tinha pelo corpo do homem, o calor das mãos deles, aquela sensação familiar de arrepio na espinha voltou a aparecer, senti-a desde o pescoço ao fim das costas, sentia o arrepio até na cabeça. O Perfume, o doce dos beijos dele...
Afugentei aquela imagem e as sensações do meu corpo, tinha de me controlar, escutei o banco de Samuel a mexer e depois logo atrás de mim senti o corpo dele, senti os ombros a ficarem tensos e estremeci. Ele pousou a caneca vazia no lava loiça ao lado de onde eu lavava as outras, mas depois, não saiu.
- Estás tensa Cassandra. - e as mãos dele pousaram-me nos ombros.
Deixei a caneca e fiquei concentrada nas mãos dele, os polegares dele rodavam nos músculos agregados às minhas omoplatas, contornava entre um vai e vem delicioso e eu deixava-me ir na sensação.
- Assim, está melhor. - disse ele, mas não parou.
-"Sejamos sinceras eu também não quero que ele pare." - pensei para com os meus botões.
- Cassandra senta-te no banco e faço-te isto muito melhor.
Abri os olhos e senti-me a corar, virei-me para ele, tínhamos pouquíssimo espaço a separar-nos, muito pouco mesmo. Não saímos do sitio.
Banco? Qual banco? Não há banco nenhum ali...
As mãos deles pousaram-me nas ancas e o rosto dele aproximou-se do meu.
- Tenho tantas saudades tuas Cassandra.
E os lábios dele pousaram nos meus.

24/09/2017
01:30
Dom.

Diana Silva







terça-feira, 19 de setembro de 2017

O Parca Negra (27º Episódio)

Tinha tanto frio, não sentia a ponta dos dedos das mãos e dos pés, a nuca parecia estar tão dura e quebradiça como uma pedra de gelo, todo o meu corpo no entanto era semelhante a um pote de gelatina, pesquisei através de memórias, tentei perceber onde estava e com quem estava ou se estava na verdade sozinha e abandonada à minha sorte. O Telemóvel tocou e eu tinha dificuldades em encontrar os ligamentos do meu corpo, onde estavam os meus músculos guardados? Quero abrir os olhos mas não consigo, quero falar, gritar mas também não consigo, onde estou eu? O meu corpo? Só sinto gelo por todo o lado.
Não oiço nada a não ser o telemóvel a tocar, que som tão irritante nesta altura, tão inoportuno, não me deixa concentrar.
Estou a respirar ao menos sinto os pulmões a expandirem-se e nem sinal do coração. Parou de tocar por um momento, dois minutos depois voltou ao mesmo. Respirei fundo e procurei uma coisa de cada vez.
Pés, olá? Após um instante de concentração consegui unir-me com eles, após este momento foi fácil chegar às pernas, agora... mãos, eu sei que estão aí, mais umas leves inspirações e... ora bem... aí estão vocês!
Bem vindos braços. O Coração começou a fazer-se ouvir, a sobrepor-se ao som do telemóvel inútil, e quando a irritação levou a melhor de mim abri finalmente os olhos e lutei para respirar, para manter a calma. Estava sozinha no meu quarto.
- No meu quarto?
Olhei para o telemóvel em cima da mesa de cabeceira. Eram nove e meia, eu tinha posto o despertador para quê? Sentei-me devagar e reparei que estava com o meu macacão vestido. Então não tinha sido só um pesadelo. Olhei para as minhas mãos, ainda tinha as unhas sujas, tentei não pensar de quê e passei para o próximo tópico na minha cabeça. O Despertador era para o pequeno-almoço com o Samuel. Ouvi a porta a abrir e assustei-me de tal maneira que pulei da cama.
- Olá... - era Vanessa - Como estás?
Estaria ela chateada? Não parecia, mas ao mesmo tempo tinha o sentimento de culpa estampado na minha consciência.
- Estou a precisar de um banho e tu?
- Posso entrar?
Pronto, ela estava decididamente estranha.
- Nessie, sabes bem que não precisas de estar ai especada na entrada, nem parece teu... estás zangada comigo?
- Estou - disse ela sem hesitar.
Uau, nenhum floreado, tinha feito asneira da grossa, apesar de que se calhar se o carro tivesse estado à minha porta quem tivesse feito aquilo podia bem ter feito algo pior. Engoli em seco.
- Escuta... eu não sabia que ia acontecer aquilo.
- Não estou zangada por causa da merda do carro Cass.
Ela quando dizia palavrões era porque estava mesmo sentida.
- Então porquê? - perguntei confusa.
Ela suspirou e fechou a porta atrás dela, veio sentar-se aos pés da minha cama.
- Para além de te teres colocado em perigo, tiveste um ataque de pânico, à quanto tempo é que isso não te acontecia?
Encolhi os ombros, eu sabia bem a que ela se referia, como podia eu ter evitado aquele acontecimento? Eu não gosto de sangue ela sabia disso.
- Foi a emoção de tudo ao mesmo tempo, estou a passar por uma fase estupidamente insana, o meu puzzle tem peças em falta Nessie, precisava de sair.
Ela aquiesceu com a cabeça.
- Eu sei que andas com problemas, mas achas que eu aguentaria que a minha melhor amiga sofresse por algo que eu tivesse feito? Que a única pessoa que partilha de uma dor conhecida me fugisse por entre os dedos outra vez? Raios te partam Cassandra, eu até me habituei a essa tua onde de mulher das cavernas, mas não me prives totalmente de ti.
O nó na garganta apertou-se, só tinham feito mal ao Seat dela, não me tinham atingido sequer, qual era na verdade o medo dela? Eu não era o alvo, era ela, eu é que tinha de ter medo por ela, algo que crescia dia após dia. Primeiro a casa, agora o carro, que mais fariam quem quer que eles fossem?
Atirei-me para cima da minha melhor amiga e abraçamos-nos. Agora que olhava bem para ela, estava vestida como uma saca de batatas e com um carrapito totalmente despenteado. O nariz vermelho e os olhos inchados diziam-me que ela tinha estado a chorar e eu odiava que ela estivesse assim.
- Nessie, não te livras de mim assim tão facilmente, agora, como vais arranjar um carro?
Ela limpou o nariz à manga da sweatshirt.
- O seguro, dá-me um substituto, até conseguir outro. O meu bebé ficou totalmente destruído, partiram até o motor, o tubo de escape foi completamente espalmado e o resto... não é preciso dizer.
Arrepiei-me toda, só de me lembrar do cenário da noite anterior.
- Não digas, vi o suficiente, sabes que mais, vou tomar banho. Já comeste?
- Não tenho estômago para nada, mas faço-te companhia no café.
Saltei da cama e já estava a caminho da casa de banho quando a Vanessa se lembrou.
- Há e o Samuel está lá em baixo, disse que ele podia ter dormido aqui, mas teimou em dormir no sofá.
Fiquei estupefacta.
- E só agora é que me dizes isso?
- Relaxa, ele ainda ressona.
Não ia relaxar, não. O meu passado estava no primeiro andar de minha casa.
- Podes meter a chaleira a aquecer?
- Já lá estou! - respondeu ela.
Fechei a porta e olhei para o espelho, o cabelo estava revolto e as olheiras fundas, o macacão todo amarrotado foi a primeira coisa a sair, roupa suja, tirei a gargantilha e a roupa interior foi a seguir. Pus-me debaixo do duche num instante e sabendo que ele ainda estava a dormir, na minha casa, oh meu Deus, demorei-me um pouco. escovei os dentes no banho, escovei as unhas para tirar o sujo, pus o dobro do amaciador no cabelo e passei duas vezes o gel de duche pelo corpo todo. Sentia-me realmente suja.
Pus o toalhão à volta do corpo e fiz um turbante na cabeça, o cabelo dava-me pelas costas já, mais tarde ou mais cedo iria fazer uma visita à minha cabeleireira. Provavelmente a mulher já pensava que eu estava emigrada.
Sequei-me, e vesti-me num ápice, tirei a toalhinha da cabeça e penteei minuciosamente para depois deixar secar ao ar livre.
Chinelos nos pés e descer escadaria abaixo. Já cheirava a café.
Estava quase a entrar na cozinha quando reparei nuns pés grandes de fora do sofá, voltei atrás e fui observar, Samuel estava deitado de barriga para cima, só de calças, braço em cima dos olhos e boca entreaberta. Algo naquela expressão me fez querer abraça-lo, senti-me nostálgica, dei por mim a pensar nele como uma fofura bastante sensual enquanto dormia.
- Psst! Cass, apanha a baba, olha o café!
Fiquei completamente encavalitada, senti-me a ficar a ferver de baixo para cima, fui para a cozinha.
- Parvalhona - disse.
- Poupa-me, vê lá se resolves esses teus problemas, estás a precisar de um homem.


20/09/2017
01:26
Qua.

Diana Silva





sábado, 16 de setembro de 2017

O Parca Negra (26º Episódio)

Não me senti surpreendida, senti-me nervosa. O polegar que se alongava na minha mão deixava rastos de dormência atrás de si, uma sensação um tanto ou quanto satisfatória.
- Mais... do que somos agora?
Ele aquiesceu.
- Foi uma decisão única e exclusivamente tua.
Senti um baque no peito, uma pontada de culpa. Porquê que eu haveria de querer exclui-lo da minha vida? O que me fez ele? Se calhar nada, ou talvez algo horrível. Estava a olhar para os meus pés quando o indicador dele me reteu o queixo e me levou a olhar directamente para ele.
- Deixaste-me uma carta, antes de te ires embora, a carta que pedi para a empregada te dar, o perfume na carta, era o teu perfum
e, a cor era a tua favorita. Guardei-a estes anos todos, mas, não chegas-te a ler a carta toda... - ele calou-se e a sua expressão calma, aliviou um pouco da minha tensão. - Esperei estes anos todos por ti, tentei esquecer-te, viajei para outro pais durante uns meses, mas o sentimento e a promessa mantiveram-se presentes no meu consciente, voltei atrás e quando voltei já te tinhas mudado.
Estava a interiorizar tudo o que ele me dizia, quantos anos eram ao certo? eu tinha-me mudado à uns quatro anos talvez, após a perda do meu pai. A carta era minha? Porquê que na altura não tinha reconhecido a minha própria letra? Hum... sim, as belas das tecnologias. Ambos continuávamos a fixar o olhar um no outro, a situação estava a tornar-se demasiado confusa e estranha para mim, como é que eu poderia ser uma pessoa tão romântica. Por um qualquer toque de estupidez decidi amenizar o ambiente, arranjar uma desculpa para me afastar um pouco, alguma distância entre nós era saudável. Muito.
- Que pouco original Samuel, sabes podia acusar-te de plágio. Enviar cartas da autoria de outras pessoas? Nada fixe.
A boca dele descaiu e funcionou ele afastou-se ligeiramente deixando cair o braço. Começou a rir-se às gargalhadas. Observei-o a tentar conter o riso, aquele som era tão bom de se ouvir, o riso arrastado, gutural, livre. Ele abanou a cabeça e voltou a olhar para mim, de sorriso aberto e olhos semicerrados.
- Tu continuas a mesma em alguns aspectos.
Fingi-me ofendida. De onde vinha a inspiração? Deveria ser do ambiente só podia.
- Só em alguns aspectos? Que qualidades terei eu perdido?
- Nenhumas pelos vistos.
E... calei-me, sorri e senti a cara a aquecer. Oooook.... Hora de "zarpar" dali.
- Está a ficar tarde e tens de descansar. - comecei.
- Estou de folga amanhã.
Lá se foi a desculpa esfarrapada, tinha necessidade de sair dali para fora, de mexer as pernas, a fonte e os bancos misturados com a lua, davam um efeito demasiado inebriante. Comecei a enumerar todas as hipóteses, algo que me pudesse surgir na mente era bem vindo, o problema era que o meu corpo se contradizia e o meu cérebro parecia apelar a todas as minhas outras personas. Caramba cérebro indeciso. Conscientemente queria estar ali e ao mesmo tempo no meu cantinho. Sentia-me segura mas tensa, o instinto gritava me que algo não estava bem...
- Precisas de ir embora?
Ele apanhara-me a olhar para o relógio.
Abanei a cabeça... abanei mesmo.
- Podemos esticar as pernas? Caminhar devagar até à saída da rua dos bares?
Não hesitou, ergueu-se cheio de energia e espreguiçou-se, observei a parca, o movimento oscilante quando o vento tocou no tecido e retive a imagem dele mais um pouquinho. Já tinha alguma barba por fazer e eu achava isso deveras charmoso.
- Vamos?
Ele ofereceu-me o braço e eu tal qual uma dama não lhe fiz a desfeita. Afinal quem se pusera ali fui eu, culpa única e exclusivamente minha. Ultimamente dava a parecer que a culpa de tudo era minha, todo o mistério e mudanças repentinas, a falha na rotina... estava a sentir-me viva ultimamente, mas ai a culpa não era minha não, era dele.
Caminhamos silenciosos durante um tempo e aproveitei para observar tudo o que havia ao nosso redor, pessoas sorridentes, alguns a babarem-se. Alguns fumavam com uma garrafa de cerveja na mão, havia meninas em cada esquina, para todos os gostos, bêbados quase defuntos, com cheiro duvidoso encostados às bermas e pessoal recém chegado.
- Agora que penso, vieste como para aqui?
Olhei para ele confusa com o cruzamento de ideias.
- Como vim? - parei um momento e sorri - oh, claro, vim com o carro da Nessie. Estou a sentir-me uma autêntica usurpadora.
- Usurpadora? - ele sorriu.
- Sim, aproveitei que ela estava morta de sono para lhe pedir tudo. Se lhe pedisse o PIN do cartão de multibanco acho que ela também mo daria.
Riu-se para si, senti o corpo tremer com os espasmos do riso, só para ser discreto, que cavalheiro. Revirei os olhos e premi os lábios para me compor interiormente.
- Bom... Cassandra, lembra-me para nunca adormecer a teu lado.
- Acho que tu não serias tão fácil assim. - admiti.
- Ai não? - provocou.
Neguei com a cabeça a parecer uma criancinha.
- Não, tens treino militar, isso não seria algo óbvio?
- Se confiasse a minha vida nas mãos dessa pessoa não.
Inspirei bem fundo e soltei todo o ar dos pulmões, o leve descanso do órgão a mirrar deu para que eu me apercebesse do meu batimento cardíaco. Pulsava tão rápido como o bater das asas de um colibri, ou então em termos médicos uma taquicardia. Lá estava eu a divagar novamente.
- Bom, então onde deixas-te o carro da tua amiga?
- Não muito longe - senti-me a entristecer repentinamente. - estacionei o mais perto possível, não sabia se tinha tempo de te apanhar.
- Mesmo ponderando no facto de que chegaste quase uma hora antes?
- Como sabes isso? - agora estava surpreendida.
Desta vez ele revirou os olhos.
- Um morcego contou-me que havia alguém inadaptado ao local que pediu uma bebida demoníaca nada aconselhável para amadores, ou seja, sangue fresco.
Bati-lhe no braço, estava toda arrepiada.
- Ou seja.. o teu amigo da entrada andou a observar-me por ti.
- Na verdade andou a admirar o teu belo traseiro.
- Samuel! - guinchei.
Ele Riu-se e eu chocada.
- Não tem piada.
Ele limpou a vista e parou, deixando só o sorriso.
- Desculpa, mas o Fernando é um mulherengo de primeira, não te preocupes ele não volta a fazê-lo.
A curiosidade matou o gato não é?
- Porquê? Já agora?
Não tive tempo de saber a resposta. Quando olhei para o carro da minha melhora amiga estaquei.
O Seat Leon Tdi Cinza claro estava completamente destruído. Pneus rasgados, um deles meio dentro e meio para fora do vidro dos Para-brisas, os espelhos laterais no chão, quebrados e algo vermelho pintava todo o carro tinha montes de palavrões escritos, corri para o carro e pus as mãos na... tinta? Fiquei a olhar para as mãos. O cheiro metálico, podre subiu-me aos sentidos e comecei a salivar, ia começar com engulhos.
- Cass? O que é isto? Estás bem? Afasta-te do carro.
Ouvi a voz dele tão longe, tão afastada de mim. Só consegui olhar para o sangue que tinha das mãos e para o interior do Seat e lá dentro estava o corpo de um animal decapitado, a cabeça da cabra estava em cima do capôt espetada numa estaca. Senti os calores e os arrepios, o sangue decrépito enchia-me as narinas e todas as acções racionais que poderia tomar e que não estava a tomar. Samuel agarrou-me no ombros e com outra entregou-me um lenço verde nas mãos.
- Cassandra, senta-te não estás com bom ar...
Neguei com a cabeça eu não me queria sentar, eu queria fugir dali para fora, algo de muito macabro estava a acontecer com a minha melhor amiga e eu fora apanhada no meio da enxurrada. Primeiro a casa e depois o carro? Sangue? Animais decapitados?
Outro abanão.
- Cass? Deixa-me limpar-te as mãos, a policia já vem ai.
Nem o tinha escutado a fazer o telefonema, de onde estava a pairar eu? Um estado febril apoderou-se de todos os meus sentidos e a visão começou a tornar-se turva, tentei limpar o sangue das mãos mas nada saia, o sangue continuava ali, por mais que limpasse ele ficaria sempre ali. Engoli a saliva em excesso, o meu estômago ameaçava cada vez mais depressa com o vómito, o stress não me estava a deixar respirar.
Só tive tempo de pensar na minha melhor amiga e de chamar pelo Samuel na minha cabeça, já não via nada, a escuridão fez-me sentir bem vinda.

17/09/2017
01:00

Dom.

Diana Silva