quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O Parca Negra (21º Episódio)

Era preciso descaramento.
- És um homem cheio de confiança - atrevi-me a dar-lhe umas palmadinhas no braço. - se um dia eu me aproximar tanto de ti como da minha melhor amiga, é porque estou pronta para o manicómio.
Os lábios dele formaram um pequeno sorriso, e eu não entendia porquê que aquele sorriso se tornava tão característico nele, ficava sempre com a minha atenção presa naquele diminuto gesto. Pisquei os olhos e virei-lhe costas, voltando para o lado da minha amiga, que nada dizia, só observava com um olhar apreensivo a entrada da sua casa, completamente arruinada.
Encostei o meu ombro ao dela e ela amparou-se em mim, envolvi-lhe a cintura num abraço. Ficámos assim sem nada dizer, ela a pensar no problema dela e a minha mente a vaguear pelas memórias do meu irmão... meu querido irmão.
Estive tão pouco tempo com ele, ele quis ser militar, um herói, defender a sua Pátria, num século que poucos entendiam o que era isso mesmo. Por isso mesmo eu nunca conhecera grandes amigos da sua parte, aquele homem era-me totalmente desconhecido. Quando eu tinha catorze anos o meu irmão tinha os seus vinte anos. Ele tinha conseguido entrar finalmente para a academia militar, todos ficaram felizes, mas eu, eu agarrei o meu mano mais velho e não consegui sorrir, o medo apoderou-se de mim, medo de o perder, uma dor inesperada corrompeu o meu sistema, quase que podia ouvir a voz dele na minha cabeça.
- "Hei, Cass, vai correr tudo bem, o mano volta todos os fins-de-semana"
Mas, isso não aconteceu pois não? Ele estudou e deu tudo de si, ele aparecia quase de dois em dois meses, o primeiro ano dele na academia fora assim, esteve presente no meu décimo quinto aniversário, mas ele, celebrou lá os seus vinte e um, bem como os vinte e dois.
No segundo ano foi muito pior.
Só o vi cerca de três vezes, a última tinha sido no Natal, na véspera, antes de o chamarem para uma missão urgente para a Chechênia, onde se dava a sua segunda guerra, ele estava escalado para travar rebeldes Chechenos nos seus ataques terroristas contra a Rússia.
Foram precisos esses dois anos para mudar toda a minha vida, para dar uma volta de cento e oitenta graus.
Quando eram exigidas ajudas eles não poderia negar-se e o meu irmão apesar de ter somente dois anos de experiência, era necessário. Ele era visto como um estratega.
No meio da memória olhei para onde Samuel estava, será que ele tinha estado lá com ele? Será que viu como ele morreu?
Ele estava distraído com algo, olhava para o céu, ou talvez para a copa das árvores como se estivesse a ver o horizonte... como se sentisse o meu olhar sobre ele, mirou-me e eu... bem, não desviei como devia ter feito, fiquei simplesmente a portar-me como uma mirone. Ele entrou no jogo, não apartou o olhar de mim e fiquei eu desta vez distraída.
Devia ter a idade que o meu irmão teria agora se respirasse. Aparentava ter os seus trinta anos ou estar quase lá. A barba estava feita, naquele dia não estava com a parca, não tinha o boné que escondia o seu cabelo revolto, em vez disso a camisa azul petróleo e as calças de ganga pretas faziam dele um homem bastante charmoso até.
Inspirei fundo e voltei-me para a Vanessa.
- Já comeste alguma coisa?
Ela acordou do seu estado encoberto e piscou-me os olhos, negou com a cabeça.
- Podemos ir almoçar no café aqui atrás, costumam servir bem. - disse ela com um sorriso torto.
Oh... minha Nessie.
- Boa ideia. - e recordei-me - o Samuel...
- Ele que venha, não vais deixar o teu jeitoso sozinho não é?
- Hei! - franzi o sobrolho - Ele não é o meu jeitoso - sussurrei para que mais ninguém ouvisse.
Ela riu-se e mordeu o lábio - Bom, já que o dizes...
Eu conhecia aquele olhar, senti-me a ficar mais branca que cal.
- Oh não Nessie... este não!
Parei à frente dela, estaria mesmo eu a marcá-lo como limite? O que me estava a passar pela cabeça? Vanessa abriu o seu sorriso, mostrou literalmente os dentes todos, estalou a língua e apontou-me com um dedo na cara.
- Não me consegues mentir Cass, este homem está a afectar-te e à grande!
Mordisquei o interior do meu lábio e cruzei os braços.
- Eu só quero obter umas informações, não é nada de especial.
Ela abanou a cabeça e fez um ar reprovador... estaria a gozar comigo?
- Não me tentes atirar areia para os olhos Cassandra, não és daquela que saca informação no marmelanço. Conheço-te demasiado bem.
Revirei os olhos e deitei todo o ar que tinha nos pulmões para fora.
- Vamos almoçar ou não? Acho que os homens ainda se vão demorar por estas bandas.
Ela assentiu e dirigiu-se para os policias com um sorriso controlado no rosto, dedicou-lhes três ou quatro palavrinhas e voltou para o meu lado.
- Podemos ir, vai lá falar com o teu borracho.
- Nessie... - avisei.
- Qual, Nessie qual quê, vamos! Estou esfomeada, não tomei o pequeno-almoço.
Assim fomos, o Samuel aceitou o convite e pusemos-nos a andar dali para fora, pelo menos um tempo de sossego visual e auditivo de toda aquela balbúrdia.
Quando chegamos ao café, sentámos-nos e fizemos o pedido, Vanessa começou com as perguntas.
Eu tinha mesmo pensado em sossego? Estúpidez a minha.
- Então, tu és o herói aqui da minha amiga... pela farda que tinhas presumo que trabalhes por ali.
Ele anui-o com a cabeça.
- Sim, no bar ao lado.
- Desculpa, não sei o teu nome. - insinuou-se dando-me uma cotovelada.
- Samuel e tu sei que és a Vanessa.
Ela sorriu.
- Bastante bem informado.
- Ouvi falar bastante de ti. - comentou casualmente, pousando os olhos em mim.
- Espero que tenham sido só coisas boas.
Franzi o sobrolho, eu nunca lhe tinha falado sobre ela... ou teria? Se bem que um tipo que tinha acesso ao conhecimento da minha morada, e-mail e número de telemóvel teria também acesso a outro tipo de informações correto?
Em vinte cinco anos nunca ninguém mexera comigo daquela maneira, nunca ninguém tomava conta de tantas emoções minhas como ele tomava. Ele fazia-me aquecer, fazia-me tremer, derretia com o toque raro dele e nada disto conhecido, mas com a sensação de que ele me era algo mais. Samuel e Vanessa continuaram com a conversa e eu mantive-me calada, pensei, imaginei até situações possíveis.
Eu e o meu irmão andámos nas mesmas escolas, ele tinha grupos mas não os apresentava como amigos, somente colegas. Passava os dias a estudar.
O Mano... o único que se metia à frente da mamã para me defender, o único que tomava as mesmas dores que eu... o único que me compreendia. Tentei observar algo em Samuel, um detalhe qualquer que me saltasse à vista, o nariz era óbvio que teria sido partido, marcas pequenas, poderia dizer-se mesmo, mínimas no rosto. Percorri todos aqueles ângulos inclusive o cabelo que se esgueirava para a testa.
Quando o empregado surgiu com os pratos coloquei os olhos na rua, na esplanada cheia à porta do café.
- Cass, estás tão calada. - puxou Vanessa.
Encolhi os ombros.
- Estou a apreciar a vista, só isso.

10/08/2017
22:37
Qui.

Diana Silva