sábado, 23 de setembro de 2017

O Parca Negra (28º Episódio)

O café cheirava tão bem, apesar da cafeína ser enérgica aquilo acalmou-me, depois de uma noite completamente cheia de emoções confusas e furiosas. A minha amiga que habitualmente era uma tagarela de primeira, agora estava calada e isso levava-me de volta ao hospital, de volta a tempos que eu não queria ter em mente. Respeitei o silêncio dela, apesar de ela muitas vezes insistir comigo quando o que eu mais queria era estar calada e no meu canto, limitei-me a beber a minha dose de bons dias.
O Silêncio era de tal maneira enorme que apeteceu-me ter o meu portátil ali, só para ouvir o som das teclas e do rato. Estranho não era? Passei tanto tempo em silêncio e agora o silêncio incomodava-me.
Tal qual a rapidez com com que uma pessoa muda de pensamentos, algo me espicaçou a mente, e porque não?
- Nessie, tenho uma proposta a fazer-te.
Ela tirou o olhar da bancada e olhou para mim, curiosa, mas não falou, sorri para deixar o ambiente menos carregado.
- Que tal mudares-te para aqui? Estarás mais segura, ninguém sabe onde estás e podes refazer um pouco a tua vida enquanto nada está resolvido.
A cara dela mudou de expressão, estava incrédula, mexeu a boca mas não tinha reacção, continuei a falar, para a tentar convencer.
- E não tens de te preocupar muito, pago a média da renda e sendo só duas pessoas também não há muito para gastar na verdade. Seria muito bom que ficasses aqui comigo Nessie.
- Cass...  - começou ela por dizer e começou a abanar a cabeça - e se eles andarem a seguir-me? Como é que descobriram o carro ontem à noite? Como é que sabiam que era o meu? Podes ser apanhada no meio disto sem saber, não quero correr riscos para ti, de manhã já estive a pensar em ficar num Motel...
Fiquei pálida.
- Escuta-me, aqui somos duas, conseguimos defendermos-nos, não é bom ficares sozinha agora, eu não quero que fiques sozinha.
Ela continuou a abanar a cabeça, parecia um cãozinho atrás do carro.
- Ela tem uma certa razão Vanessa.
A voz rouca da manhã provocou-me arrepios, um sentimento de nostalgia deixou-me a tentar reviver as memórias que não encontrava. Olhei para ele quando se sentou no banco ao nosso lado, já com a camisa vestida.
- Como assim ela tem razão?
Ah... então eu fui a única a ficar parada no tempo, optei por não ficar na posição de múmia retardada e servi-lhe um café, saltei do banco para tirar uma caneca e meter o café ainda quente lá dentro.
- É simples, acho que quem quer que seja não está interessado na Cassandra e se alguém soubesse realmente onde estás, não achas que já teriam destruído o carro aqui mesmo à porta?
Ela suspirou e eu também, podia ser que o Samuel me ajudasse a convence-la.
- Já para não falar que deve ser alguém que só te quer assustar, pois já tiveram oportunidades para te fazer algo com certeza e não o fizeram.
- Ou não arranjaram a altura ideal, mal já me estão a fazer.
Mas que nuvem era aquela a cair sobre a minha melhor amiga? Já não tinha bastado a adolescência dela?
- Só te vai fazer bem ficares aqui, comigo, acompanhada.
Ela baixou os ombros e bebeu o café, que provavelmente já estava frio.
- Deixa-me pensar, ok?
Levantei as mãos.
- Dou-te o tempo que quiseres, assim ao menos até lá estás comigo.
Ela sorriu e levantou-se despejou o resto que tinha na caneca para o lava-loiça e despediu-se.
- Vou deitar-me um pouco, estou acordada desde as duas da manhã.
Quando terminou a frase já estava fora da cozinha, ouvi os passos nas escadas e depois o som da porta do quarto a fechar.
Levantei-me e fiz o mesmo, despejei o café e lavei as canecas, sempre consciente que o Samuel estava ali comigo e os dois estávamos sozinhos. De repente um sonho que não tinha tido há muito tempo surgiu-me na mente. Os beijos no pescoço, a necessidade que tinha pelo corpo do homem, o calor das mãos deles, aquela sensação familiar de arrepio na espinha voltou a aparecer, senti-a desde o pescoço ao fim das costas, sentia o arrepio até na cabeça. O Perfume, o doce dos beijos dele...
Afugentei aquela imagem e as sensações do meu corpo, tinha de me controlar, escutei o banco de Samuel a mexer e depois logo atrás de mim senti o corpo dele, senti os ombros a ficarem tensos e estremeci. Ele pousou a caneca vazia no lava loiça ao lado de onde eu lavava as outras, mas depois, não saiu.
- Estás tensa Cassandra. - e as mãos dele pousaram-me nos ombros.
Deixei a caneca e fiquei concentrada nas mãos dele, os polegares dele rodavam nos músculos agregados às minhas omoplatas, contornava entre um vai e vem delicioso e eu deixava-me ir na sensação.
- Assim, está melhor. - disse ele, mas não parou.
-"Sejamos sinceras eu também não quero que ele pare." - pensei para com os meus botões.
- Cassandra senta-te no banco e faço-te isto muito melhor.
Abri os olhos e senti-me a corar, virei-me para ele, tínhamos pouquíssimo espaço a separar-nos, muito pouco mesmo. Não saímos do sitio.
Banco? Qual banco? Não há banco nenhum ali...
As mãos deles pousaram-me nas ancas e o rosto dele aproximou-se do meu.
- Tenho tantas saudades tuas Cassandra.
E os lábios dele pousaram nos meus.

24/09/2017
01:30
Dom.

Diana Silva