sábado, 19 de setembro de 2015

O Parca Negra ( 7º Episódio )

Fora do café, Vanessa puxou do isqueiro e acendeu o cigarro.
- Precisas de sitio para ficar?
A preocupação dela era genuína e eu estava a gravar um filme na minha cabeça. Imaginei certas cenas cortadas e até no director consegui arranjar uma descrição. 
Ela estalou os dedos.
- Quase que acabei o cigarro e tu ainda não me respondes-te.
A boca estava seca, a garganta doía e a cabeça estalava. Dei por mim a pensar se os cigarros que ela fumava eram 100%. Andava nervosa ultimamente?
"Estás a divagar Cassandra... Foca-te!" - Pensei para comigo mesma.
Metade do cérebro dizia para não me preocupar e a outra acendia todos os alerta vermelhos e todos os alarmes possíveis e imagináveis.
- Não preciso...
Suspirei, sem acabar a frase e sem sequer agradecer pela disponibilidade imediata. A cabeça dos dedos estavam doridos, meio calejados dos lápis, das canetas, dos marcadores, meio avermelhados da fricção da borracha ou da força no riscar nos rascunhos.
comecei a escutar o som da caneta a arranhar a folha de linhas em branco, um pensar incessante um acumular de situações, tão breves como o bater das asas de um colibri...
Fez-se luz na minha cabeça.
- Tenho que ir para casa!
Ela atirou a beata para o chão.
- Já? Porquê?
- Porque preciso de ir, tenho uma ideia a aflorar-me na cabeça. Não a posso perder.
Vanessa respirou bem fundo.
- Tu e as tuas doidices, juro que nunca te irei compreender...
- Tudo bem não compreendas, até logo, vá Xau!
Arrepiei caminho no sentido contrário ao que nos encontrávamos, em passo acelerado tentando não perder o sentido da questão.
"Continua a pensar cabeça oca, continua!"
Sem querer parecer muito maluca, coisa que não estava a resultar visto que parecia que estava a fugir de um assassino em série, pus-me em vinte minutos em casa, onde abri todas as janelas e afastei todos os cortinados, onde tirei uma chávena cheia de cafeína e fiz uma bruta de uma sandes e com o farnel todo montado situei-me no centro da sala com as pernas à chinês, com o computador no colo e tudo o que precisava estava na minha cabeça...
Passara um mês inteiro a escrever aquele manuscrito de 500 páginas, noites e dias sem dormir, semanas sem contacto com a sociedade, enchaquecas, olheiras fundas e escuras, pele pálida de não apanhar sol, tendinites e até as articulações estalavam. O coração batia a mil, mas nunca tivera tanta certeza daquilo que queria fazer como naquele momento.
Aqueci as mãos, respirei bem fundo, com uma última vista àquele terrorífico manuscrito feito à pressão e olhei somente para uma tecla...
- É agora ou nunca Cassandra!
O meu dedo caiu no "delete"...


Diana Silva
02:06h
20/09/2015 Domingo.
  

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