quarta-feira, 13 de junho de 2012

"Emancipada" - Exerto


" - “ Não olhes para trás, faças o que fizeres, não olhes, para, trás!”
Assim que dobrei a esquina e vi o primeiro poste de iluminação, o aperto desanuviou e tive de parar mesmo por debaixo da luz onde me sentia mais segura. Tentei controlar a respiração demasiado ofegante quando ouvi um rosnar atrás de mim. Senti arrepios gelados a subirem a minha coluna e todos os pelinhos dos meus braços ficaram em pé. Olhei para trás de onde viera um som tão desconcertante e quase me saíram os olhos das órbitas.
Aquilo não era normal… não era humano, não era nada, parecia que enfrentava o olhar de um demônio – espera - aquilo não tinha olhos! Eram apenas duas covas negras e mais abaixo um triângulo escuro todo arrepanhado como se lhe tivessem arrebentado com o que deveria ser um nariz. A boca abria-se mostrando uns dentes nojentos todos aguçados e afastados entre si como se fossem os de uma planta carnívora, escorria-lhe um liquido negro, misturado com vermelho da boca que manchava o chão - parecia petróleo - tinha porções de cabelo de espaço em espaço todos arrepiados e tinha apenas uma orelha que parecia estar comida e roída. O tronco curvava-se todo, mostrando a coluna ossuda debaixo da pele, os pés tinham falta de dedos e as mãos eram horrivelmente esqueléticas e gigantescas, como se fossem garras de dragão ou até mesmo uma mistura genética muito estranha - podia dizer que aquilo quase andava por “quatro patas”. As pernas pareciam as de um canguru pelo seu formato só que eram finas e a pele do monstro era esverdeada misturada com terra e sangue.
Quando me permiti cheirar o ar a minha volta, vi que era insuportável, parecia o cheiro a esgoto misturado com bombinhas de mau cheiro da melhor categoria, era indescritível.
Comecei a ter a sensação do vómito e tonturas tudo misturado com o pavor que sentia. Dei passos hesitantes para trás e a criatura seguia-me, parecia que farejava o ar para captar o meu odor.
- “Mau dia para usar perfume.”
Pois claro, sem olhos não me via, então o que faria? Olhei para o chão sem tentar mover-me muito e encontrei pedrinhas, baixei-me devagar e apanhei umas quantas, mais um rosnar baixinho como se fosse uma queixa e fechei os olhos, ergui-me mais um pouco e procurei um sítio para onde pudesse atirar as pedras, encontrei um beco, atirei o mais longe possível e ouvi o chocalhar das pedras que me fez tremer, tapei a boca.
A cabeça da criatura girou para o lado de onde eu atirara as pedras e começou a dar passos hesitantes nessa direção, comecei a calcular passos e a afastar-me - a criatura também já se afastava de mim - quando por um raio de sorte qualquer o meu telemóvel recebeu uma mensagem e o som estridente fez-se notar.
Com o susto sobressaltei-me e pousei mal o pé, pisando uma rocha, escorregando, caindo de rabo no asfalto e batendo com o cotovelo no chão causando-me uma dor horrível. A criatura rosnou e começou a correr na minha direção dando um salto imediato, abrindo os braços, tentei arrastar-me para longe quando esbarrei num cano maltratado, agarrei no tudo com a ponta cortada e ergui-o fechando os olhos automaticamente.
A criatura soltou um grito descomunal, algo dum outro mundo e quando consegui abrir os olhos, o monstro estava colado à parede a definhar e a afogar-se no seu próprio sangue. Uma sombra apareceu a meu lado e ergui-me rapidamente com o tubo na mão, pronta a lutar. Depois daquela adrenalina toda de certeza que iria cair redonda na cama.
- Pousa isso por favor, ainda arrancas um olho a alguém!
- Hã?! – Foi só o que consegui proferir.
Escutei a voz, sabia que era um homem e depois ele saiu detrás das sombras com as mãos no ar e com o sorriso que sabia ser de troça.
- Então posso baixar os braços ou vais bater-me com isso? ... "

Diana Silva - Excerto de "Emancipada"

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