terça-feira, 11 de julho de 2017

O Parca Negra (12º Episódio)

Calor, estava muito calor. Não sabia se era pela presença dele ou se por estar em cima do prédio a levar com o sol de chapa. Parecia que todo o meu corpo entrava em ebulição de dentro para fora, como se tivesse esturricado. Eu recordava-me do olhar escuro, os olhos negros faiscantes mas aqueles tinham a cor de uma alma viva e radiante. Poderia aquilo ser alguma vez possível? Existir tanta sensação num olhar, tanta promessa.
Engoli em seco e senti-me a dar um passo para trás, ele seguiu o meu passo mantendo a mesma distância. De mãos ao peito voltei a dar outro e ele repetiu o movimento. Parei e ele continuou até restar só a distância de um pé, a sua mão ergueu-se sem hesitar e o indicador percorreu-me da têmpora ao maxilar e do maxilar ao queixo, percorreu-me um formigueiro, uma leve dormência que despertou pequenos choques eléctricos por onde o seu dedo passava, um rasto incandescente que me punha o coração acelerado. A sua mão curiosa não parou por aí, passando pela jugular do meu pescoço e atravessando a clavícula parando no ombro. Um aperto suave como que a justificar a sua posição.
Não o parei, deixei que ele repetisse de maneira exacta no outro lado e senti as minhas faces pálidas a ruborescer, o corpo a ganhar vida. Deixei-me guiar pelo toque suave e escaldante de tão mínimo que o era. Quando a sua mão pousou no outro ombro estas giraram deixando-me a rodopiar num frenesim irrequieto na minha mente. Fechei os olhos e senti o toque a percorrer-me os braços, os pulsos e depois num salto abraçou-me as ancas e aproximou-me ao seu corpo. Uma Parede de emoções, inspirei fundo e abri os olhos.
Ele observava cada reacção que eu tinha, o seu olhar penetrava no meu e estava totalmente concentrado.
Não sabia se devia fugir, eu pelo menos não o queria., mas...não devia?
Senti-me completamente embriagada, o seu perfume era possante o seu toque firme deixava-me a desejar que não estivéssemos em cima de um prédio com tantos andares e o seu olhar... oh, o seu olhar...
Contive o impulso que tive de lhe tocar, queria sentir a pele do seu rosto, peito, braços, observá-lo como ele me observava a mim mas, não o fiz, esperei, que ele reagisse.
O peito dele subiu e desceu como se apanhasse uma essência a pouca distância que nos separava, por amor de Deus, que faria eu? Estava tão inebriada, tão confusa por um estranho de emoções fortes.
Quando pensava que ele iria cortar caminho até à minha boca, livrou-me do seu aperto e separou-nos novamente.
Não... eu não queria...
- Não devias deixar-te guiar por alguém de quem não te recordas Cassandra.
De quem não me... recordo?
- A culpa é tua! Tu é que vieste ter comigo. - Escutei-me a dizer.
Ele observou-me curioso e o sorriso voltou a aflorar-lhe a pele.
- Pois fui. Fui mesmo.
- E então? Vais continuar aqui a provocar-me ou vais dizer-me algo minimamente esclarecedor?
Ah... lá estava a coragem e firmeza novamente. Ele volta a ajeitar o boné e coloca a sua melhor expressão de pensador.
- Provocar-te até seria interessante, mas infelizmente estamos demasiado desprotegidos e as paredes têm ouvidos...
- Para com isso! Fala - e depois murmurei - por favor.
- Cass...
Como sabia ele a minha alcunha?
- Já alguma vez te disseram que és muito impaciente, não posso recordar-me por ti.
- Mas recordar o quê? - Ok, agora estava a ficar muito frustrada.
- O passado. - disse ele levantando uma sobrancelha.
Senti uma necessidade enorme de me abraçar a mim própria ou de que alguém me abraçasse. Um calafrio gigantesco percorreu-me a espinha. Engoli em seco e desta vez o desejo consumiu-se e fiquei extremamente nervosa.
- O meu passado não tem nada de interessante. Nada que valha a pena.
Uma gota de suor escorreu-me pelo rosto.
- Oh mas tem e tens de enfrentar os teus fantasmas Cassandra.
- Não, não tenho.
O que saberia ele da minha vida? O que quereria ele dizer? Não queria fazer uma viagem a más recordações, não queria aproximar-me do abismo novamente. Senti a ameaça das lágrimas mas forcei-as a estar quietas. Ele ficou quieto, não se mexeu e perguntei novamente.
- Diz-me, por favor, quem és tu?
- Alguém que preza muito a tua vida, só saberás se me quiseres recordar Cass.
Outra estocada no peito e mais um murro no estômago, sensações tão dispares. Primeiro a luxuria e depois a depressão. A minha voz quase se derreteu no meio da amargura.
- Não consigo, não posso. Quem quer que tu sejas tens de te afastar, não quero o meu passado de volta.
O seu rosto alterou-se momentaneamente, aquilo era... mágoa?
- Ele vai voltar quer tu queiras quer não. Lembra-te do porquê que escreves, lembra-te do porquê que te fechas em casa.
Fechei a boca, não aguentava mais a pressão e tal como uma verdadeira covarde virei costas e corri na direcção das escadas de incêndio, desci tão rápido que nem dei por chegar ao último piso de escadas, não dei por atravessar as estradas, escapou-me o som dos carros a buzinar e as travagens bruscas. Não prestei atenção a ninguém à minha volta, eu só queria a minha casa, o meu lar, e quando cheguei à porta peguei nas chaves de mãos trémulas e após várias tentativas consegui entrar e fechar a porta atrás de mim.
Deixei-me cair com o coração a mil, as veias das têmporas a bombear, a respiração ofegante e por fim a visão turva. Agarrei-me aos meus joelhos e deixei as lágrimas correr livremente, chorei tudo o que tinha a chorar, chorei pelos anos, chorei pelas perdas e desilusões, chorei pela prisão que me impusera a mim mesma e mesmo no fim não conseguia saber quem ele era... não conseguia trazer ao de cima as memórias mais fortes, tinha erguido barreiras para elas, tinha pago para isso, tinha sido tratada... e no fim para nada, tudo voltara ao mesmo... o meu passado perseguira-me e encontrara-me dando-me uma valente chapada de luva branca.

11/07/2017
19:44h
Ter.
Diana Silva



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