quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Parca Negra (13º Episódio)

"Estava escuro, tudo tinha escurecido tão de repente e eu estava feliz. Vi a neve a cair através da janela toda ela em altura. O cheiro que vinha da cozinha era delicioso, fazia com que me crescesse água na boca, seria o quê?
Continuei a ver os pequenos pedaços de algodão brancos a cair, lentamente, sem pressa de chegar ao solo frio, húmido e brilhante. Um manto branco cobria agora toda a extensão diante da minha casa. Nunca nevava, era a primeira vez que via um espétaculo tão bonito. Mexi na bainha da minha saia, torcia e voltava a esticá-la. 
Observava os punhos e as mangas bem engomadas, queria desfazer-me delas. Senti o sobrolho a franzir. 
Saltei do banco onde estava sentada a admirar a paisagem e pus-me passo a passo a dar voltas ao sofá que estava no meio da sala. O Aroma era tão meu conhecido, nada de estranho, tudo era casa.
A pequena mesa de centro fora envernizada recentemente. O cheiro dos citrinos pairava no ar, livre e feliz, como eu me sentia.
Agora estava a subir e a descer as escadas, primeiro um pé, depois o outro e no fim para descer a saltitar com os dois.
Apesar da suposta felicidade que sentia, estava impaciente, sentia-me ansiosa, algo me estava a remoer a curiosidade e o tempo não acorria a meu favor.
Mudei para a sala de estar e a minha vista abarcou a árvore de natal, iluminada com uma centena de luzes coloridas, sete fitas de todas as cores a adornar toda a circunferência, o número da minha idade, todos os anos punham as fitas e todos os anos as fitas aumentavam, uma de cada vez. Achei engraçado que fosse assim, não que alguma vez me dissessem que a intenção era essa. Parei diante do pinheiro enorme que ocupava um espaço mínimo na sala. Cheirava a plástico e a pó e no entanto deixava-me delirante e nostálgica. Aproximei-me para ver de perto uma bola espelhada e vi o meu reflexo, reflectido em múltiplos espelhos pequenos.
Sorri com todos os dentes e a voz da minha mãe fez-se ouvir por cima da minha jovem divagação.
- Cassandra, filha! O Jantar está quase pronto, vai lavar as mãos.
Larguei as minhas gémeas e corri para a casa de banho, onde por causa da pressa de lavar as mãos molhei as mangas e o nervosismo percorreu-me o corpo todo... a mamã não ia gostar...
Não fui tão rápida a voltar para a sala de jantar como para ir para a casa de banho, pensei que se dobrasse as mangas a mamã não iria reparar.
Cheguei e os últimos pratos estavam a ser postos na mesa, sentei-me discretamente, tentando não atrair muita atenção para a camisola de lã. Mantive os braços baixos.
- Hum... cheira tão bem mamã - disse eu.
Ela sorriu-me, mas, a sua expressão nunca me parecia ser a mais correta. Serviu-me e perguntei-me onde estariam os manos e o papá, mas, não me atrevi a perguntar, a mamã não gostava que eu fizesse perguntas.
- Agora come Cassandra. - ordenou.
Peguei no garfo e na faca e cortei o que me parecia um bom bife de peru, com batatas doiradas e legumes salteados. Estava delicioso.
Quando ela se sentou observei a sua maneira mecânica de se mexer e o seu olhar frio abateu-se sobre mim, observou-me da cabeça até ao prato e parou no ponto onde eu não queria que ela olhasse. Engoli à espera do que me iria acontecer, já aceitara o facto de que eu tinha de ser perfeita para a mamã, tinha de estar limpa, imaculada. O punho dela abateu-se sobre a mesa e estremeci. As minhas pernas que mal tocavam no chão começaram a tremer e olhei para baixo.
- Cassandra - o tom era enganadoramente suave, tal qual uma cobra capelo prestes a morder - porque tens as mangas da camisola puxadas para cima?
Mordi o interior da bochecha  e sabia que dali se eu fugisse iria ser pior. Pus os braços em cima da mesa e estiquei-as, ainda ensopadas, o tecido mais escuro onde eu tinha molhado sem intenção.
A Cadeira da mamã arrastou violentamente para trás e com um silvo rápido a sua mão abateu-se sobre a minha cara, o choque fora tão grande que me fizera cair da cadeira abaixo e tentei não verter uma lágrima que fosse. Não era seguro, a mamã não era segura, se eu chorasse ela não pararia.
- Já não te disse que não te quero suja? Minha porca imbecil! - gritou.
Cada palavra me punha mais em baixo.
- Não sabes fazer nada de jeito, agora vais ter de mudar de roupa! Vai para o teu quarto e não saias de lá, o jantar para ti acabou.
O nó da garganta formou-se, levantei-me tremelicante do chão e caminhei agarrada ao meu próprio braço. Passei pela árvore, pela janela, subi as escadas e fui dar ao meu quarto. Ainda não podia chorar, ela ainda ia voltar, eu sabia. Ela voltava sempre... sempre. Onde está o papá? Os manos mais velhos? Porquê que eles não estão cá? Com eles seria tudo melhor....
Encostei-me à almofada e de estômago praticamente vazio, deixei-me adormecer... não por muito tempo. Acordei com o choque nas pernas.
Gritei e saltei encostando a cara à almofada, a sua mão apoderou-se da minha cabeça e empurrou mais para baixo para me abafar os gritos mas não sem me deixar respirar. A parte de metal do cinto continuou a abater-se sobre o meu rabo, sobre a parte de cima das minhas coxas e não parou até estar satisfeita. Eu só me perguntava o porquê? Porquê mamã? Eu amava-te tanto, porque não eras capaz do mesmo? Porque só te vingavas em mim?
Quando terminou a sua mão agarrou-me pelos cabelos e virou-me.
- Para a próxima, não molhes as mangas! - rosnou.
Fiquei no escuro a soluçar, chorei contidamente, não podia fazer barulho. Ardia-me tudo, sabia que ia ficar com marcas, sabia que teria de as esconder e nas próximas semanas não poderia usar vestidos. E com o pensamento e sensações dolorosas chorei contra a almofada, era a que me confortava, a que tinha o toque mais doce e suave..."
Acordei ainda de lágrimas nos olhos, tinha adormecido no chão encostada à porta. Voltaram... os pesadelos voltara... as memórias abateram-se mais uma vez e escaparam do meu subconsciente.
Levantei-me do chão e cambaleante subi as escadas e fui para o meu quarto. Vanessa ainda iria demorar.
Deixei-me cair na cama e enrolei-me como se fosse um novelo, a minha almofada estava fresca e ajudou-me a aliviar a tensão, a trazer-me um pouco de presente em vez de passado.
Ainda tinha medo, o medo não me abandonara mesmo sabendo que agora era diferente, que agora já não poderia sair magoada, mas do que teria eu realmente medo?
Abracei-me com mais força ainda e sem dar pelo tempo a passar ouvi a porta de entrada a abrir e a fechar...
- Cass! Nem sabes o que te trago! Vais adorar.
Fechei os olhos e inspirei todo o ar que podia para a seguir libertá-lo. O meu lar voltara a mim e senti os meus lábios a formar um sorriso muito ténue.

13/07/2017
Qui.
02:46

Diana Silva















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