segunda-feira, 24 de julho de 2017

O Parca Negra (15º Episódio)

Ao tirar os fones olhei para as horas, no cantinho inferior direito do meu portátil. A aurora já se estendia ao longe, rosas, laranjas, turquesas e roxos a misturarem-se e a navegarem, a deslizarem pelo azul que ia cobrindo o céu muito preguiçosamente, como se nem o dia estivesse pronto para nascer de novo. As nuvens estavam a apartar-se no céu e as seis e meia daquele inicio chegavam. Seria um dia soalheiro de primavera.
Estiquei-me e bocejei, os ombros e os olhos completamente tensos, a coluna tão torta como um monge ao passar horas a rezar durante anos numa capela, suspirei e olhei para o meu trabalho, orgulhosa e satisfeita, foram dezasseis capítulos intensos cheios de factos verídicos à mistura, ficção e drama... estava a tentar escrever o primeiro final "não" feliz.
Polémico iria ser de certeza mas eu mesma estava farta de finais perfeitos, de Barbie´s e Ken´s como personagens principais e de amor ao pôr do sol. Revirei os olhos e tornei a bocejar, hora da caminha.
Arrastei-me até ao andar de cima, descalcei-me, despi-me toda até só sobrar a roupa interior e fechei os olhos... O cansaço deveria ser extremo pois os sonhos provindos do inferno não me visitaram, descansei realmente depois de algum tempo.
Acordei com o som irritante do despertador a tocar, eram oito da noite, senti um peso enorme na cabeça apesar de ter dormido sem interrupções. Estiquei as articulações todas e estalei quase todos os ossos do meu corpo, do pescoço aos dedinhos dos pés. Fui à casa de banho.
Arranjei o cabelo num novo rabo de cavalo mais por rotina do que outra coisa qualquer e observei as olheiras, por mais noites que dormisse não iriam sair dali. Só mesmo um milagre, encolhi os ombros à figura com cabelo espesso castanho chocolate e fui para a cozinha, só mesmo para poder beber um café a ferver.
Estava prestes a tornar-me numa nova espécie de morcego, algo híbrido por assim dizer, só para dizer que eu não era cega, só tinha de mudar de lentes pois já se passara dois anos desde a última mudança.
Quando sorvi o primeiro gole queimei a língua. Ora muito bem feita Cassandra... um copo de água e a situação acalmou. Depois o café não me soube tão bem, a língua ficou a parecer lixa e fiz uma careta. caminhei para a sala e liguei o portátil, pus os óculos na cara e esperei pacientemente. A Vanessa ainda não tinha chegado, provavelmente estaria a fazer um turno extra no trabalho por isso teria mais algum tempo de sossego, se bem que já me estava a habituar à tagarelice da Nessie novamente.
Iniciou e uns dois minutos depois recebi o aviso de uma mensagem enviada as dezassete e trinta e quatro... em anónimo.
"Não devias deixar um cavalheiro apeado na esplanada de um café Cassandra. Aguardo resposta. O Parca Negra"
E não é que o meu plano funcionara? Não fora mesmo, dormira que nem pedra. Bom... estava cansada não poderia fazer nada quanto a isso. Também não respondi sentindo-me depois um pouco culpada bem no fundo da minha consciência.
Tentei pôr mãos ao trabalho e ouvi a porta a abrir, Vanessa finalmente chegara, eram nove horas da noite, gritei da sala.
- Como foi o trabalho Nessie?
- Vais ter de lhe perguntar isso depois.
Saltei da cadeira e bati com rabo no portátil ao virar-me. Ele estava ali mesmo, encostado à ombreira da porta como se fosse algo casual entrar dentro de propriedade privada sem se ser convidado. No seu indicador giraram umas chaves.
- Que estás aqui a fazer?
O meu coração estava pronto a mergulhar para fora da boca. Eu e ele sozinhos numa casa não era bom sinal.
- Bom... visto que tiveste a esperteza de me deixar apeado decidi fazer-te uma visita.
- Não te dei autorização para entrares, nem foste convidado sequer por isso sai ou chamo a policia.
Ele sorriu.
- Não o irás fazer, não com tanta coisa que te posso contar.
Engoli em seco mas mantive-me firme, não iria mostrar medo.
- A curiosidade matou o gato e eu não quero nada do que tu tenhas para me oferecer.
- De certeza... Cass? - O seu olhar ficou serio, o sorriso matreiro sumiu-se e naquele momento vi a brasa. Os olhos dele fizeram-me lembrar chamas azuis ou mercúrio líquido.
Avançou sobre a minha figura, lento como uma pantera à caça da sua presa. Afastei-me para o outro lado da sala, iria dar-me uma margem de manobra maior.
- Para trás!
O seu sorriso reapareceu, ele estava a gostar.
- Porque não foste Cassandra?
Ergui o queixo.
- Que eu saiba não combinei nada contigo, nem te confirmei nada.
Ele estalou a língua, o som despertou algo curioso dentro de mim bem no meu ventre, a acendalha queria começar a aquecer.
- Estás a ser imatura Cassandra, já está mais que na hora de cresceres e enfrentares as coisas. Nem tudo foi mau no passado.
Enquanto falava ele aproximou-se afastei-me de novo, estava a movimentar-me em quadrados grandes, mas desta vez ele não parou mas eu também não lhe virei as costas, não podia.
- Eu é que tenho de crescer? Tu que não me conheces de lado algum.... eu que não te conheço... roubas-me as chaves, entras em minha casa e dizes-me para crescer? EU? Desaparece daqui ouvis-te? Vou chamar a policia.
Consegui chegar à porta e corri para o telemóvel que ficara no quarto, quando cheguei as escadas uma mão apanhou-me pela camisola e se não fosse ele a agarrar-me cairia redonda no chão. Porra porquê que nunca andava com o telemóvel? Sacudi-me e esperneei e ele tapou-me a boca para não gritar. Senti as costas a tocar na parede quando ele me fez dar uma volta brutal de tão rápida que foi. Notei aí na força dele e na sua agilidade, decidi parar, o seu olhar era um misto de frustração e divertimento. Acalmei-me e ele deixou a mão sair-me da boca, quando falei estava rouca.
- Quando fugi do prédio deixaste-me ir não foi?
- Não valia a pena ir atrás de ti naquela altura, mas depois vi que deixas-te as tuas coisas lá comigo, não gosto de ficar com o que não me pertence.
Ergui a sobrancelha e fiquei consciente de que o seu peito tocava no meio, a sua respiração era fresca na minha cara e algo mudou. Eu olhei-no nos olhos, vi-o mesmo. Eu conhecia aquele rosto de algum lado, aquela linha do queixo, o nariz torto de provavelmente já o ter partido mas a expressão intensa que ele tinha no seu olhar, era aquela que me cativava mais. Só dei pela aproximação quando a visão começou a ficar turva e a respiração mais acelerada. Julgara só ter sentido os lábios dele em sonhos mas não, senti mesmo e agora sentia-os novamente. Quentes, molhados e excitantes. O calor consumiu-me e as suas mãos mudaram rapidamente, passaram de barras a prender-me para a seguir me prenderem somente os pulsos como algemas. O beijo não tinha nada de tímido e a minha reacção impulsiva foi a que mais me surpreendeu. Os meus braços soltaram-se das suas mãos e envolveram-lhe o pescoço, aprofundei o beijo e apercebi-me da minha carência, do quanto me fazia a falta de um tipo certo de companhia. Deixei os pensamentos a parte no momento em que ele me liberta os lábios agora dormentes e me mordisca o lóbulo da orelha e desceu lambendo o pescoço e beijando numa linha certa até à clavícula. As mãos dele pegaram no cantinho do meu decote em V da camisa fina que tinha e a sua boca foi de novo ao meu ouvido.
- Espero que não gostes muito desta.
Fiz uma expressão interrogativa e ofegante até que ele me possuiu novamente os lábios e ouvi o "Rrrchh" do tecido a ser rasgado ao meio parcialmente. Com uma mão na minha nuca a outra prosseguiu para a minha copa  que cobriu toda a palma da sua mão. Ambos gememos com a sensação, não estava a ser racional de todo. A sua boca ameaçava seguir o seu destino quando a porta se abriu e a voz tão conhecida se fez ouvir.
- Uffa, ainda bem que o senhorio tinha outra chave senão nã....
Eu e ele éramos uma mistura de lábios, braços, pernas e a minha exposição mínima de pele, olhámos um para o outro aturdidos e assim que me apercebi afastei-o e o seu ar aborrecido/divertido veio ao de cima.
- Boa noite, peço desculpa incomodar mas já estou de saída.
Fiquei chocada assim como Vanessa, ambas a olhar para ele sem reacção. Deu-me um beijo mesmo abaixo do maxilar e despediu-se.
- Até à próxima querida, espero que amanhã apareças.
Senti a cara a ferver e quando ele saiu a porta emitiu apenas o som do clique a fechar-se suave e discreto. Olhei para a minha melhor amiga que continuava embasbacada, a minha expressão deveria estar para lá do ridículo. Um minuto e a boca aberta dela passou para um sorriso enorme e totalmente desprovido de culpa. Pousou as chaves e dirigiu-se para a cozinha.
- Sou mesmo uma "empata fodas" não sou?

25/07/2017
01:26
Ter.

Diana Silva






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